terça-feira, 13 de março de 2012

Alfaiate da alma

Sempre que me dói o peito vem-me à memória a história parabólica daquele cliente que vai experimentar um fato a um alfaiate.
Começa por enfiar as calças, mas ficam-lhe um pouco apertadas, e faz uma série de movimentos com as pernas e as ancas para tentar perceber até que ponto elas estão justas.
O alfaiate, homem experimentado, a tudo assiste a uma distância de cerca de metro e meio do cliente, e vai rodando à sua volta, com a tesoura na mão direita, o giz na outra, e a fita métrica ao pescoço.
Inclina o pescoço para um e outro lado, para ver aqueles detalhes de que apenas ele se apercebe, e passados alguns momentos, diz: - Espere só até provar o casaco, e logo se esquece das calças!
Até há pouco estava demasiado preocupado com o meu aspecto, com a queda do cabelo, a brancura dos dentes, as manchas na pele, o tónus muscular. Mas bastou um acidente vascular para deixar de me preocupar com essas coisas, e já nem reparo nos cabelos que vêm agarrados ao pente cada vez que me penteio.

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