É sempre o primeiro a sair de casa, quando todos ainda dormem.
Levanta-se sem qualquer ruído, sem qualquer emoção que denuncie o seu estado de alma, mecanicamente, o que consegue fazer na perfeição depois de anos de prática.
A esposa nem se apercebe da sua ausência, do lugar vazio a seu lado, perdida nos sonhos de felicidade que há muito persegue inutilmente.
Há muito que não procuram os corpos, evitam tocar-se como se tal fosse uma profanação das suas vontades.
Os filhos adolescentes dormem nos quartos do fundo da habitação, tendo sossegado apenas há um par de horas, como sempre, que para eles a vida é para ser vivida ao segundo, e cabe toda nos seus computadores, nos seus telemóveis, nos ipads e ipods, e anima-se quando a noite vai alta.
Há muito que desistiu de se levantar para recomendar silêncio, que naquela casa ainda há quem trabalhe, pois o efeito era perverso, acordando a esposa que fica bastante perturbada.
Encerra-se no quarto de banho e sem ruído faz a higiene pessoal naquela rotina levada à perfeição, sendo que a barba é a fase mais demorada, mas de tal forma aperfeiçoou a técnica que todos os movimentos são precisos e sincronizados.
O banho é rápido pois detesta gastar água inutilmente, muito menos acordar a esposa, perturbar-lhe os últimos instantes de libertação.
Veste-se no escuro, às apalpadelas, e só no elevador ajusta a gravata e compõe o cabelo e a gola do casaco.
Pontualmente, mas sem gosto ou emoção entra no carro. Ainda é noite, e outros como ele fazem o mesmo, esboça um vago cumprimento a alguém que reconhece, e arranca, percorrendo o mesmo caminho de todos os dias que o levará à grande cidade.
Vale a pena o sacrifício de se levantar mais cedo, pois assim não encontrará muito trânsito, a menos que haja algum acidente, e em menos de trinta minutos chegará à zona do escritório, tendo ainda a vantagem de encontrar estacionamento não pago, autêntico luxo de que não pode abrir mão.
Entra no café do costume, onde já estão os clientes habituais, nos sítios habituais, tomando o pequeno-almoço habitual. Felizmente não são muitos os colegas de escritório que ali vão, pois detesta essa familiaridade forçada no exterior, já lhe chegando o convívio inevitável no interior.
A hora certa chega, e é com alguma relutância que se encaminha para o outro lado da rua, saúda o porteiro que lhe retribui cordialmente o cumprimento, e sobe os dois lanços de escada que dão acesso ao escritório.
Cumprimenta os dois ou três colegas que já lá se encontram, atarefados nas suas rotinas, ou contando alguma peripécia, e encaminha-se para o seu gabinete, cuja secretária fica estrategicamente virada para o exterior, onde se vislumbra uma enorme parede branca, como se fosse a pantalha de projecção de um filme mudo.
Despe o casaco que pendura num bengaleiro, e começa a ver os papéis amontoados num cesto metálico onde está um pequeno letreiro que diz “in”, suspira profundamente, coloca os óculos de ver ao perto, arregaça as mangas, e pensa nos seus sonhos perdidos de juventude, nas férias que tem que garantir nesse mês, sem falta, no sítio do costume, no futuro dos filhos num país em crise, e na vida que se afunila e lhe escapa por entre os dedos.
Vida sonhada em esplendor, agora limitada pela realidade, monótona, não vivida, que o atraiçoou a meias com o destino, e o aprisionou na falta de coragem para se redescobrir.
Levanta-se sem qualquer ruído, sem qualquer emoção que denuncie o seu estado de alma, mecanicamente, o que consegue fazer na perfeição depois de anos de prática.
A esposa nem se apercebe da sua ausência, do lugar vazio a seu lado, perdida nos sonhos de felicidade que há muito persegue inutilmente.
Há muito que não procuram os corpos, evitam tocar-se como se tal fosse uma profanação das suas vontades.
Os filhos adolescentes dormem nos quartos do fundo da habitação, tendo sossegado apenas há um par de horas, como sempre, que para eles a vida é para ser vivida ao segundo, e cabe toda nos seus computadores, nos seus telemóveis, nos ipads e ipods, e anima-se quando a noite vai alta.
Há muito que desistiu de se levantar para recomendar silêncio, que naquela casa ainda há quem trabalhe, pois o efeito era perverso, acordando a esposa que fica bastante perturbada.
Encerra-se no quarto de banho e sem ruído faz a higiene pessoal naquela rotina levada à perfeição, sendo que a barba é a fase mais demorada, mas de tal forma aperfeiçoou a técnica que todos os movimentos são precisos e sincronizados.
O banho é rápido pois detesta gastar água inutilmente, muito menos acordar a esposa, perturbar-lhe os últimos instantes de libertação.
Veste-se no escuro, às apalpadelas, e só no elevador ajusta a gravata e compõe o cabelo e a gola do casaco.
Pontualmente, mas sem gosto ou emoção entra no carro. Ainda é noite, e outros como ele fazem o mesmo, esboça um vago cumprimento a alguém que reconhece, e arranca, percorrendo o mesmo caminho de todos os dias que o levará à grande cidade.
Vale a pena o sacrifício de se levantar mais cedo, pois assim não encontrará muito trânsito, a menos que haja algum acidente, e em menos de trinta minutos chegará à zona do escritório, tendo ainda a vantagem de encontrar estacionamento não pago, autêntico luxo de que não pode abrir mão.
Entra no café do costume, onde já estão os clientes habituais, nos sítios habituais, tomando o pequeno-almoço habitual. Felizmente não são muitos os colegas de escritório que ali vão, pois detesta essa familiaridade forçada no exterior, já lhe chegando o convívio inevitável no interior.
A hora certa chega, e é com alguma relutância que se encaminha para o outro lado da rua, saúda o porteiro que lhe retribui cordialmente o cumprimento, e sobe os dois lanços de escada que dão acesso ao escritório.
Cumprimenta os dois ou três colegas que já lá se encontram, atarefados nas suas rotinas, ou contando alguma peripécia, e encaminha-se para o seu gabinete, cuja secretária fica estrategicamente virada para o exterior, onde se vislumbra uma enorme parede branca, como se fosse a pantalha de projecção de um filme mudo.
Despe o casaco que pendura num bengaleiro, e começa a ver os papéis amontoados num cesto metálico onde está um pequeno letreiro que diz “in”, suspira profundamente, coloca os óculos de ver ao perto, arregaça as mangas, e pensa nos seus sonhos perdidos de juventude, nas férias que tem que garantir nesse mês, sem falta, no sítio do costume, no futuro dos filhos num país em crise, e na vida que se afunila e lhe escapa por entre os dedos.
Vida sonhada em esplendor, agora limitada pela realidade, monótona, não vivida, que o atraiçoou a meias com o destino, e o aprisionou na falta de coragem para se redescobrir.
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