terça-feira, 29 de agosto de 2017

O HOMEM SUSPENSO - Conto curto

O HOMEM SUSPENSO




Mesmo em frente ao seu apartamento há um prédio em construção.  
Uma manhã aproximou-se da janela e fixou-se por momentos nos trabalhos, nos sons, nas ordens gritadas pelos encarregados, de uma forma aparentemente anárquica.  
Subitamente a sua atenção fixou-se no operador do guindaste.  Pareceu-lhe ser a única pessoa calma daquele grupo.  
Estava numa posição privilegiada.  
Em vários sentidos.
A mais evidente era estar acima do solo, a uma certa altura. 
Arriscaria dizer a uns trinta, trinta e cinco metros. Ao nível do terraço de um prédio de dez andares. 
Tem seguramente uma vista magnífica sobre o espaço e poderá controlar sem esforço todos os movimentos daqueles que dependem dele para dar o próximo passo. 
Para o verem, aqueles que estão em baixo têm de olhar para cima, num movimento pouco natural. Que não se consegue manter durante muito tempo sem dor. 
Está, pois, numa espécie de posição divina, apenas com a desvantagem, ou vantagem, de ser parcialmente visível e de sofrer das limitações dos comuns dos mortais. 
A analogia, porém, é soberba. Controla todos os movimentos e os passos seguintes daqueles que estão ao nível do solo. 
É certo que o seu raio de acção é curto. Talvez não mais que dois metros. Porém, o guindaste que opera tem um alcance maior. 
Aí uns vinte metros de raio, o que significa que controla uma área cem vezes maior. 
Vítor apenas identificou uma desvantagem naquela posição superior. Tinha que estar sempre a olhar para baixo, e isso, para além de ser incómodo e pouco natural, retirava-lhe alguns graus de liberdade. 
Padecerá Deus das mesmas limitações, ou estará centrado nalgum lugar estratégico no centro do todo? 

A certa altura, pareceu-lhe que o operador olhou para ele. Notou-lhe um ar de inquietação, apesar da distância.


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