O
HOMEM SUSPENSO
Mesmo em
frente ao seu apartamento há um prédio em construção.
Uma manhã
aproximou-se da janela e fixou-se por momentos nos trabalhos, nos sons, nas
ordens gritadas pelos encarregados, de uma forma aparentemente anárquica.
Subitamente a
sua atenção fixou-se no operador do guindaste. Pareceu-lhe ser a
única pessoa calma daquele grupo.
Estava numa
posição privilegiada.
Em vários
sentidos.
A mais
evidente era estar acima do solo, a uma certa altura.
Arriscaria
dizer a uns trinta, trinta e cinco metros. Ao nível do terraço de um
prédio de dez andares.
Tem seguramente
uma vista magnífica sobre o espaço e poderá controlar sem esforço todos os
movimentos daqueles que dependem dele para dar o próximo passo.
Para o verem,
aqueles que estão em baixo têm de olhar para cima, num movimento pouco
natural. Que não se consegue manter durante muito tempo sem dor.
Está, pois,
numa espécie de posição divina, apenas com a desvantagem, ou vantagem, de ser
parcialmente visível e de sofrer das limitações dos comuns dos mortais.
A analogia,
porém, é soberba. Controla todos os movimentos e os passos seguintes
daqueles que estão ao nível do solo.
É certo que o
seu raio de acção é curto. Talvez não mais que dois metros. Porém, o
guindaste que opera tem um alcance maior.
Aí uns vinte
metros de raio, o que significa que controla uma área cem vezes maior.
Vítor apenas
identificou uma desvantagem naquela posição superior. Tinha que estar
sempre a olhar para baixo, e isso, para além de ser incómodo e pouco natural,
retirava-lhe alguns graus de liberdade.
Padecerá Deus
das mesmas limitações, ou estará centrado nalgum lugar estratégico no centro do
todo?
A certa altura,
pareceu-lhe que o operador olhou para ele. Notou-lhe um ar de inquietação,
apesar da distância.

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