ANTE SPIRITUM
Levamos muito tempo a amadurecer as
ideias sobre determinados acontecimentos que nos marcaram indelevelmente em
determinada altura da nossa vida. Eles permaneceram na nossa mente como uma infecção
latente que foi evoluindo lentamente, algo adormecida, até encontrar uma
fragilidade emocional para se revelar.
Um ponto de escape.
De repente, sem qualquer aviso prévio,
salta-nos a mola, como sói dizer-se. Há quem lhe chame o corpo de dor
emocional, e também há quem denomine esse fantasma com o nome pomposo de
pressuposto implícito inconsciente. Há ainda quem defenda que esse é o nosso
verdadeiro eu.
Sou menos filosófico. Prefiro falar em
fragilidades ocasionais que nos transportam para momentos que consideramos
felizes do nosso passado recente ou distante. Uma viagem no tempo para locais
seguros.
Sim, a meu ver, é a fragilidade
emocional, a consciência do Ser, que despoleta esse processo doloroso de
criação. Subitamente, como por encanto, a memória de um facto antigo, embrião
da criação, ganha vida própria e descobre o criador, muitas vezes para o
salvar, outras para o confrontar consigo próprio.
São sobretudo factos isolados que de
súbito ganham forma e se revelam em todo o seu esplendor, como se fossem a
parte emersa de um iceberg, aquela que se consegue enxergar a olho nu. Então,
nessa vertigem emocional, tudo o que há a fazer é mergulhar nas águas geladas
que ocultam a sua verdadeira dimensão. A princípio é doloroso, há um choque térmico
que quase faz parar a respiração, mas depois adaptamo-nos ao ambiente e
tornamo-nos exploradores.
Como as leis da física, que existem
independentemente de haver ou não consciência delas, também as histórias têm
vida própria e apenas estão à espera que alguém tenha a capacidade de o
demonstrar. E continuam a reger a nossa vida, apesar de apenas em sonhos, por
vezes, as podermos visualizar. Mas é sempre um processo doloroso e ficamos com
a impressão que não conseguimos recriar com fidelidade o nosso passado. Parece
até que apenas pelo facto de o tentarmos a situação se transforma, se torna
noutra entidade. A sensação é de que estamos a criar, não a recriar. Será
impossível revisitar o passado? Será que o crivo da mente introduz subtilezas
de que não nos apercebemos?
É difícil falar com clareza de um tema
que conhecemos em profundidade.
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