terça-feira, 29 de agosto de 2017

A Liberdade das areias movediças - Contos com sabor agridoce

ANTE SPIRITUM

Levamos muito tempo a amadurecer as ideias sobre determinados acontecimentos que nos marcaram indelevelmente em determinada altura da nossa vida. Eles permaneceram na nossa mente como uma infecção latente que foi evoluindo lentamente, algo adormecida, até encontrar uma fragilidade emocional para se revelar.
Um ponto de escape.
De repente, sem qualquer aviso prévio, salta-nos a mola, como sói dizer-se. Há quem lhe chame o corpo de dor emocional, e também há quem denomine esse fantasma com o nome pomposo de pressuposto implícito inconsciente. Há ainda quem defenda que esse é o nosso verdadeiro eu.
Sou menos filosófico. Prefiro falar em fragilidades ocasionais que nos transportam para momentos que consideramos felizes do nosso passado recente ou distante. Uma viagem no tempo para locais seguros.
Sim, a meu ver, é a fragilidade emocional, a consciência do Ser, que despoleta esse processo doloroso de criação. Subitamente, como por encanto, a memória de um facto antigo, embrião da criação, ganha vida própria e descobre o criador, muitas vezes para o salvar, outras para o confrontar consigo próprio.
São sobretudo factos isolados que de súbito ganham forma e se revelam em todo o seu esplendor, como se fossem a parte emersa de um iceberg, aquela que se consegue enxergar a olho nu. Então, nessa vertigem emocional, tudo o que há a fazer é mergulhar nas águas geladas que ocultam a sua verdadeira dimensão. A princípio é doloroso, há um choque térmico que quase faz parar a respiração, mas depois adaptamo-nos ao ambiente e tornamo-nos exploradores.
Como as leis da física, que existem independentemente de haver ou não consciência delas, também as histórias têm vida própria e apenas estão à espera que alguém tenha a capacidade de o demonstrar. E continuam a reger a nossa vida, apesar de apenas em sonhos, por vezes, as podermos visualizar. Mas é sempre um processo doloroso e ficamos com a impressão que não conseguimos recriar com fidelidade o nosso passado. Parece até que apenas pelo facto de o tentarmos a situação se transforma, se torna noutra entidade. A sensação é de que estamos a criar, não a recriar. Será impossível revisitar o passado? Será que o crivo da mente introduz subtilezas de que não nos apercebemos?

É difícil falar com clareza de um tema que conhecemos em profundidade.


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