Estamos na época dos Beatles e da guerra no Vietname.
Estamos em Faro, cidadezinha pacata de um Algarve que começa a ser descoberto pelos primeiros turistas franceses.
Estamos no LNF, onde em todas as salas de aula existe uma foto oficial do Estado Novo.
Estamos no LNF onde existe um gineceu bem no centro do “Quadrado”, e onde só se pode dirigir a palavra ao sexo oposto a partir de um raio de 500 metros, com Centro na “hall” de entrada do LNF.
Estamos no 4º ano do liceu na primeira aula de história e a todo o momento esperamos a entrada do Prof. Para nos levantarmos colectivamente, no mais profundo silêncio.
Ninguém entra depois de 2 ou 3 minutos de espera.
Começam as primeiras piadas ao fundo da sala, com João Monteiro e Henrique Botto a marcarem o ritmo.
De repente alguém entra, fraca figura, sorridente e comendo um resto de uma sandes, e o silêncio apenas é cortado pelo barulho de um levantar colectivo.
- Aqui é que é o 4º B? Pergunta o recém-chegado.
- Sim, reponde Isaú Guerreiro Gonçalves, o menos surpreendido.
- Então, estou no sítio certo. Sou o vosso Prof. de História. Quando quiserem fazer queixa de mim ao Xerife (Reitor José Ascenso), o meu nome é António Gomes.
Esta foi a apresentação de alguém que modificou totalmente o nosso ano lectivo.
Finalmente tínhamos um professor não alinhado, que entendia os alunos e dava as aulas de uma forma brilhante.
De facto a rigidez e a formalidade da maioria das aulas, levava-nos a vaguear entre os fantasmas da fé e os espectros da racionalidade, mas na realidade não nos abriam a porta da cela.
Com António Gomes sentimo-nos pela primeira vez parte do processo de ensino.
Com ele as aulas começavam sempre com uma espécie de meditação balbuciante de cerca de10 minutos, onde todos podiam dizer o que quisessem, despejar tudo o que sentiam, e isso era absolutamente fascinante (nunca mais tive a oportunidade de repetir tal experiência, e já lá vão mais de 40 anos).
Estou a vê-lo subir a Avenida a pé, com um grupo de alunos a discutir ou as vitórias do Benfica ou o problema do Vietname.
Estou a ver a sua colega e namorada e futura esposa, a filha de José Ascenso, a convidá-lo para entrar no seu magnífico carro, e António a recusar dizendo que estava numa aula ao ar livre.
Estou a vê-lo rodar sobre os calcanhares para, com um sorriso nos lábios, apanhar alguém a copiar durante um teste.
Estou a vê-lo pagar uns pequenos-almoços a alunos mais desfavorecidos nessa cidade de Faro de grandes desequilíbrios sociais, perfeitamente representados na sala de aula.
Teve grandes problemas com o seu liberalismo, o que era inevitável, mas como ele próprio dizia, citando Kafka, “ a partir de um certo ponto, deixa de haver retorno…é esse ponto que temos que atingir, custe o que custar…”
Estamos em Faro, cidadezinha pacata de um Algarve que começa a ser descoberto pelos primeiros turistas franceses.
Estamos no LNF, onde em todas as salas de aula existe uma foto oficial do Estado Novo.
Estamos no LNF onde existe um gineceu bem no centro do “Quadrado”, e onde só se pode dirigir a palavra ao sexo oposto a partir de um raio de 500 metros, com Centro na “hall” de entrada do LNF.
Estamos no 4º ano do liceu na primeira aula de história e a todo o momento esperamos a entrada do Prof. Para nos levantarmos colectivamente, no mais profundo silêncio.
Ninguém entra depois de 2 ou 3 minutos de espera.
Começam as primeiras piadas ao fundo da sala, com João Monteiro e Henrique Botto a marcarem o ritmo.
De repente alguém entra, fraca figura, sorridente e comendo um resto de uma sandes, e o silêncio apenas é cortado pelo barulho de um levantar colectivo.
- Aqui é que é o 4º B? Pergunta o recém-chegado.
- Sim, reponde Isaú Guerreiro Gonçalves, o menos surpreendido.
- Então, estou no sítio certo. Sou o vosso Prof. de História. Quando quiserem fazer queixa de mim ao Xerife (Reitor José Ascenso), o meu nome é António Gomes.
Esta foi a apresentação de alguém que modificou totalmente o nosso ano lectivo.
Finalmente tínhamos um professor não alinhado, que entendia os alunos e dava as aulas de uma forma brilhante.
De facto a rigidez e a formalidade da maioria das aulas, levava-nos a vaguear entre os fantasmas da fé e os espectros da racionalidade, mas na realidade não nos abriam a porta da cela.
Com António Gomes sentimo-nos pela primeira vez parte do processo de ensino.
Com ele as aulas começavam sempre com uma espécie de meditação balbuciante de cerca de10 minutos, onde todos podiam dizer o que quisessem, despejar tudo o que sentiam, e isso era absolutamente fascinante (nunca mais tive a oportunidade de repetir tal experiência, e já lá vão mais de 40 anos).
Estou a vê-lo subir a Avenida a pé, com um grupo de alunos a discutir ou as vitórias do Benfica ou o problema do Vietname.
Estou a ver a sua colega e namorada e futura esposa, a filha de José Ascenso, a convidá-lo para entrar no seu magnífico carro, e António a recusar dizendo que estava numa aula ao ar livre.
Estou a vê-lo rodar sobre os calcanhares para, com um sorriso nos lábios, apanhar alguém a copiar durante um teste.
Estou a vê-lo pagar uns pequenos-almoços a alunos mais desfavorecidos nessa cidade de Faro de grandes desequilíbrios sociais, perfeitamente representados na sala de aula.
Teve grandes problemas com o seu liberalismo, o que era inevitável, mas como ele próprio dizia, citando Kafka, “ a partir de um certo ponto, deixa de haver retorno…é esse ponto que temos que atingir, custe o que custar…”
Sem comentários:
Enviar um comentário