CORPO
PRESENTE
O
corpo de Joaquim Pereira repousava numa urna de madeira
exótica, colocada exactamente no centro da pequena capela de Castanheira
Grande, num plano invulgarmente elevado. Aguardava-o o descanso eterno, agora
que os funcionários da Agência Funerária das Beiras tinham dado o trabalho por
concluído, e se despediam reverentes, com um ar pesaroso, como é timbre da sua
piedosa profissão. Os três homens tinham articulado uma armação metálica
especial, a pedido da viúva, de modo que a urna ficasse a um nível mais elevado
que o normal. O estranho pedido não lhes retirou a habitual eficiência
profissional, e em pouco tempo a agência AFB resolveu a situação.
A morte fora confirmada às vinte e uma
horas do dia anterior pelo chefe de equipa do hospital distrital, e treze horas
depois já o corpo chegava à capela, entretanto preparado para receber tão
ilustre defunto, transportado na carrinha da agência. O sacristão, o senhor Faustino,
já tinha sido incumbido de dispor os bancos segundo as instruções da viúva,
transmitidas por telefone pouco tempo depois de Joaquim ter sido declarado
morto. A mulher de Faustino, a Dona Antónia, fora quem tinha atendido a
chamada, e depois de ter percebido do que se tratava, pediu um momento à Dona
Constança, tapou o bocal, e gritou para o marido ir chamar o padre Mariano, que
já estava deitado àquela hora. Faustino ainda reclamou mas depois de ouvir
falar em Constança Pereira, levantou-se de imediato da cadeira onde estava
sentado a assistir a um jogo de futebol transmitido pela televisão, e subiu ao
quarto do padre.
Mariano começou por estranhar o
telefonema às dez da noite, depois ficou intrigado com a calma e precisão com
que Dona Constança Pereira o informou do passamento do marido, e ia perdendo a
compostura quando a viúva começou a enumerar uma lista enorme de disposições
para o velório e funeral. Parecia até que já tinha planeado tudo com bastante
antecedência. Mariano ainda esboçou uma frase de condolências, mas foi de
imediato interrompido pela voz forte e decidida da viúva, que declarou não ter
tempo para argumentações.
Limito-me
a seguir as instruções do meu esposo, que me disse poder contar consigo, senhor
padre Mariano - disse a viúva, com voz firme, e Mariano
não tinha como dizer não.
Era imperioso que tudo estivesse pronto
de acordo com as disposições do marido e o velho padre não fora capaz de
contra-argumentar, apesar de ter muitas dúvidas quanto à origem daquelas
diretivas, e estar deveras surpreendido com a atitude de Dona Constança.
Estarei
aí quando o corpo chegar! - declarou no fim do
telefonema, e depois do som habitual de desligar, Mariano ficou ainda algum
tempo com o auscultador na mão, enfiado naquele roupão branco que lhe dava um
ar fantasmagórico. Olhou depois para o casal que a uma certa distância o
observavam com um ar preocupado, e finalmente desligou.
- Há algum problema, senhor padre
Mariano? - atreveu-se a perguntar Antónia.
- Morreu o Joaquim Pereira!
- Ah! Valha-me Deus - disse Faustino -
Mas estava doente?
- E morreu onde? - perguntou Antónia,
ansiosa.
- Morreu aqui no hospital de Castelo
Branco - confirmou Mariano - Foi a esposa que me disse.
- Não cuidei que estivesse doente -
disse Faustino, e Antónia torcia as mãos, algo nervosa, e a espaço puxava o
lenço para cima da cabeça.
- É a vida, meus amigos - disse Mariano,
reconhecendo que nem sequer perguntara as causas da morte, e depois suspirou -
É a vida. Ainda ontem falei com ele.
- E agora, que fazemos, senhor padre? -
perguntou Faustino, com aquele seu jeito algo perdido.
- Agora há muito que fazer. E também
vamos precisar da ajuda da tua mulher. O corpo chega aqui pela manhã e tenho um
monte de pedidos da viúva - depois olhou para o tecto, como que procurando
alguma coisa - Espero não me ter esquecido de nada!
Era a primeira vez que Mariano via uma
viúva tão pouco chorosa e tão decidida em aceitar a morte do homem com quem
vivera nos últimos dez anos. Era verdade que não conhecia muito bem a mulher
elegante e algo distante que estava agora perto dele, e isso constrangia-o um
pouco, limitava-lhe o discernimento. Também não podia contrariar aquilo que sempre
dizia nos funerais, que era preciso aceitar os desígnios divinos. Constança
tinha chegado minutos depois do carro funerário, como se quisesse confirmar que
o corpo do marido tinha sido entregue no local certo. Passados uns momentos de
estupefacção, Mariano dirigiu-se à viúva, que estava parada à entrada da porta
da capela e olhava para o pequeno templo, mas era impossível interpretar o que
lhe ia na alma. Dona Constança deu alguns passos em direcção da urna mas depois
deteve-se. Estava elegantemente vestida de negro, uma roupa que lhe evidenciava
as formas, usava chapéu, tinha o rosto oculto por uma renda também preta e
manteve-se algo afastada do caixão enquanto o padre Mariano acompanhava os três
profissionais, quais anjos negros, até à saída da pequena capela.
- Um excelente trabalho - disse o
sacerdote, mas logo se arrependeu ao pensar no amigo desaparecido. Era a frase
habitual, tantas vezes dita sem a mínima convicção.
A urna ficava praticamente ao nível dos
olhos de uma pessoa com estatura média, e claramente acima do nível do altar. Aquela
posição de relevo tinha sido uma imposição da viúva, apesar da resistência
inicial do velho padre Mariano, diácono da diocese e velho amigo e também
professor de catequese do falecido.
Não
sei se será boa ideia elevar o Joaquim acima do altar - disse
com voz hesitante, olhando fixamente para o rosto da Senhora Dona Constança de
Castro Pereira que tinha finalmente retirado o véu. Ainda era uma mulher
bonita, apesar da idade, e os anos tinham-lhe oferecido uma aura de mistério
que intrigava qualquer um.
Foi
um último pedido de Joaquim, que só ele poderá justificar - argumentou
ela e isso teve o efeito de um decreto na mente do velho pároco, que finalmente
recuperou o controlo das emoções - E
agora será muito difícil pedir explicações ao meu defunto.
Era pois uma última vontade de Joaquim
Pereira, e contra isso nada podia ser feito.
Aquela argumentação era inatacável, e
Mariano acabou por ceder. Duvidava muito que tivesse sido ideia de Joaquim, conhecia-o
suficientemente bem para não acreditar que quisesse ficar acima de toda a gente
depois de morto, mas já não tinha forças nem vontade para rebater aquelas
palavras. Limitou-se a anuir com um movimento subtil de cabeça e a abrir os
braços de forma teatral enquanto emitia um som praticamente indecifrável.
Voltou-se para o falecido e de seguida colocou a mão de uma forma suave, quase
a medo, sobre a urna do amigo agora desaparecido.
Sim,
desaparecido! - pensou, enquanto fechava os olhos sem
largar a mão da urna, postura que a viúva tomou por uma oração de despedida e
por isso se manteve imóvel e silenciosa, um pouco atrás. Mariano não acreditava
muito naquela tese antiga a que muitos chamavam alma primitiva, que defende que a pessoa e o cadáver não são duas
entidades distintas, são um e o mesmo ente, cuja dualidade e presença em dois
lugares distintos não prejudica a individualidade.
Será
mesmo isto que a tese diz?- interrogou-se, mas logo abandonou
esses pensamentos para se concentrar na fragilidade da vida. Já celebrara a
morte imensas vezes e continuava sem perceber o mistério apesar das palavras
seguras com que transmitia a certeza da vida eterna.
Talvez
quando me tocar a mim, as dúvidas se dissipem - pensou,
enquanto tentava adivinhar o estado do rosto do amigo que tinha sido coberto
por um lenço opaco de cambraia, a pedido da viúva - Ou talvez não, mas nunca serei capaz de revelar a verdade.
-
Que
Deus o tenha em sua guarda - acabou
por dizer, em voz sumida, e depois afastou-se do corpo de Joaquim, a criança e
o jovem simples que se tornara um vencedor da vida e transformara por completo
a face daquele lugar esquecido dos homens, a aldeia de Castanheira Grande,
entalada entre duas serras, esquecida pelos governantes.
- Bem merece esta distinção - reconheceu,
para agradar à viúva, depois de passar os olhos pela disposição dos bancos
corridos, em forma de U, abraçando a urna onde Joaquim repousava com os pés virados
para o altar.
Mariano já perdera o conto aos funerais
que celebrara naquela capela, e também já memorizara os passos necessários para
chegar ao cemitério, subida a Rua de Santo António lá em cima no montado, bem
perto do famoso cerejal da Dona Eduarda Taveira, proprietária rural viúva de
longa data, a quem era imputado um terrível mau feitio.
Talvez
seja por morar perto do cemitério que ela tem aquele feitiozinho - disse-lhe
uma vez o Conde José de Albuquerque, um amigo de infância, rico proprietário e
grande benemérito da terra, cujo único filho e herdeiro acabaria por cair em
desgraça depois da morte prematura dos progenitores.
Cabra
amarela! - lembrou-se Mariano da alcunha pouco
abonatória de Eduarda, e não conseguiu evitar um ténue sorriso a esta
recordação, facto que não passou despercebido à viúva.
- Lembrou-se de algum facto feliz,
senhor padre? - perguntou Constança de Castro com um ar irónico, mas o velho
padre não se perturbou e emitiu uma frase enigmática:
- A morte pode ser uma libertação, minha
filha!
Constança estava impecavelmente vestida
com um fato preto que lhe ficava particularmente bem. Era uma mulher alta,
ainda com um corpo elegante, apesar de estar prestes a deixar a casa dos sessenta,
e a seu lado o padre Mariano parecia algo deslocado, enfiado naquela sotaina
que já tinha visto dias melhores, o cabelo ralo mal aparado, a barba de dois dias,
a pele um pouco escamada por evidente falta de tratamento ao longo da vida.
- Foi um casamento curto! - disse
Mariano em voz baixa, sem saber porquê, como se pensasse alto, mas logo se
arrependeu. Disfarçou o embaraço ao voltar-se para trás para dar autorização ao
sacristão, entretanto surgido vindo da sacristia, para ligar os círios
eléctricos.
Felizmente a viúva teve uma reacção
positiva, e isso aliviou-lhe a mente:
- Mas muito feliz, senhor padre Mariano
- limpou uma lágrima furtiva num momento de aparente fragilidade - Mas muito
feliz!
O velho pároco agarrou-lhe as mãos que
afagou com carinho, e depois olhou para cima tentando adivinhar as emoções da
mulher. Dona Constança era mais alta que ele, e aqueles sapatos de salto alto
ainda acentuavam mais a diferença de estatura. Acompanhou-a ao exterior,
caminhando devagar pelo corredor central, de mãos entrelaçadas num raro momento
de aparente comunhão de sentimentos.
- Precisa de alguma coisa, Dona
Constança? - perguntou Mariano já perto da porta da Igreja.
- Reze por mim, senhor padre - disse,
num tom indefinido, depois de ter baixado de novo a renda preta daquele magnífico
chapéu preto que encomendara a um fabricante parisiense meses antes. Não queria
que lhe vissem o rosto choroso, segundo disse ao padre, num momento de aparente
fraqueza.
- Por nós, minha filha - disse,
respeitosamente - Então até às oito, no velório.
Mariano ficou ainda a vê-la entrar para
a traseira do carro, e aquela era uma imagem que o havia de acompanhar ao
túmulo, como pensou. O elegante motorista, um jovem desconhecido talvez na casa
dos trinta, impecavelmente vestido, apressou-se a abrir-lhe a porta traseira do
lado direito, que depois fechou com toda a delicadeza após confirmar que a viúva
estava bem sentada. Mariano ainda arregalou os olhos ao ter um vislumbre da
coxa direita de Constança, mas lembrando-se da sua condição, acabou por se
fixar no motorista que lhe fez uma respeitosa e subtil vénia antes de contornar
o magnífico Mercedes e se sentar ao volante. Quase podia jurar que Constança
estava feliz no momento que o carro arrancou com estilo, conduzido pelas mãos
hábeis do jovem, e pareceu-lhe ver na curta troca de olhares entre os dois, uma
certa dose de cumplicidade. Fechou depois lentamente a porta da capela atrás de
si, com a testa franzida pelos pensamentos impuros que lhe povoavam a mente, mas
ainda teve tempo de verificar que já eram muitos os populares curiosos que se
acercavam do templo, ansiosos por prestar as derradeiras homenagens a um homem
notável. A notícia correra célere, como seria de esperar num meio pequeno. Afinal
não tinha sido a única testemunha daquela cena extraordinária. Ainda teve a
lucidez para confirmar o horário do velório, afixado naquele pequeno quadro
onde sobressaía uma fotografia antiga de Joaquim Pereira, fornecida pela AFB. Aproximou-se
de novo da urna, de cabeça baixa, imerso nas suas cogitações. Aquele velório
iria ser um verdadeiro desafio à sua fé.
- Já reparou, senhor padre Mariano? -
perguntou o sacristão, olhando para o corpo de Joaquim.
- Reparei em quê, Faustino?
- Na cara do senhor Joaquim Pereira!
- Que tem, Faustino? - pergunta Mariano,
e apressou-se a destapar o lenço e a observar o rosto do amigo com alguma
atenção, sem lhe notar qualquer particularidade. Era a primeira vez que olhava
para o amigo agora sem vida. Joaquim Pereira estava, como todos os mortos,
estendido de uma maneira particularmente pesada, cadavérica, os membros rígidos
profundamente enterrados no acolchoado do caixão, a cabeça pousada para a
eternidade na almofada. Contudo, ao invés da generalidade dos mortos, não apresentava
uma tez amarelada, de icterícia ou cera, nem tinha as têmporas cavadas e nuas como
Mariano se habituara a ver nos que abandonavam o corpo. Os olhos estavam
abertos e pareciam fixá-lo com interesse, como se o tentasse avisar de alguma
coisa, se bem que o padre pressentisse que a mensagem não lhe era destinada.
O seu coração acelerou, ainda tentou fechar os olhos
ao velho amigo, mas para sua surpresa as pálpebras voltavam sempre a abrir-se, e
assustado com o estranho facto, apressou-se a colocar o lenço sobre aquele
rosto que parecia desafiar a morte.
- Parece vivo, não é verdade? - perguntou Faustino,
abrindo-se num sorriso que mais parecia um esgar, mas Mariano não respondeu,
limitando-se a limpar com a ajuda da palma da mão direita o suor frio que lhe
inundava o rosto.
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