quinta-feira, 23 de novembro de 2017

VELÓRIO - 1º Capítulo

CORPO PRESENTE

O corpo de Joaquim Pereira repousava numa urna de madeira exótica, colocada exactamente no centro da pequena capela de Castanheira Grande, num plano invulgarmente elevado. Aguardava-o o descanso eterno, agora que os funcionários da Agência Funerária das Beiras tinham dado o trabalho por concluído, e se despediam reverentes, com um ar pesaroso, como é timbre da sua piedosa profissão. Os três homens tinham articulado uma armação metálica especial, a pedido da viúva, de modo que a urna ficasse a um nível mais elevado que o normal. O estranho pedido não lhes retirou a habitual eficiência profissional, e em pouco tempo a agência AFB resolveu a situação.
A morte fora confirmada às vinte e uma horas do dia anterior pelo chefe de equipa do hospital distrital, e treze horas depois já o corpo chegava à capela, entretanto preparado para receber tão ilustre defunto, transportado na carrinha da agência. O sacristão, o senhor Faustino, já tinha sido incumbido de dispor os bancos segundo as instruções da viúva, transmitidas por telefone pouco tempo depois de Joaquim ter sido declarado morto. A mulher de Faustino, a Dona Antónia, fora quem tinha atendido a chamada, e depois de ter percebido do que se tratava, pediu um momento à Dona Constança, tapou o bocal, e gritou para o marido ir chamar o padre Mariano, que já estava deitado àquela hora. Faustino ainda reclamou mas depois de ouvir falar em Constança Pereira, levantou-se de imediato da cadeira onde estava sentado a assistir a um jogo de futebol transmitido pela televisão, e subiu ao quarto do padre.
Mariano começou por estranhar o telefonema às dez da noite, depois ficou intrigado com a calma e precisão com que Dona Constança Pereira o informou do passamento do marido, e ia perdendo a compostura quando a viúva começou a enumerar uma lista enorme de disposições para o velório e funeral. Parecia até que já tinha planeado tudo com bastante antecedência. Mariano ainda esboçou uma frase de condolências, mas foi de imediato interrompido pela voz forte e decidida da viúva, que declarou não ter tempo para argumentações.
Limito-me a seguir as instruções do meu esposo, que me disse poder contar consigo, senhor padre Mariano - disse a viúva, com voz firme, e Mariano não tinha como dizer não.
Era imperioso que tudo estivesse pronto de acordo com as disposições do marido e o velho padre não fora capaz de contra-argumentar, apesar de ter muitas dúvidas quanto à origem daquelas diretivas, e estar deveras surpreendido com a atitude de Dona Constança.
Estarei aí quando o corpo chegar! - declarou no fim do telefonema, e depois do som habitual de desligar, Mariano ficou ainda algum tempo com o auscultador na mão, enfiado naquele roupão branco que lhe dava um ar fantasmagórico. Olhou depois para o casal que a uma certa distância o observavam com um ar preocupado, e finalmente desligou.
- Há algum problema, senhor padre Mariano? - atreveu-se a perguntar Antónia.
- Morreu o Joaquim Pereira!
- Ah! Valha-me Deus - disse Faustino - Mas estava doente?
- E morreu onde? - perguntou Antónia, ansiosa.
- Morreu aqui no hospital de Castelo Branco - confirmou Mariano - Foi a esposa que me disse.
- Não cuidei que estivesse doente - disse Faustino, e Antónia torcia as mãos, algo nervosa, e a espaço puxava o lenço para cima da cabeça.
- É a vida, meus amigos - disse Mariano, reconhecendo que nem sequer perguntara as causas da morte, e depois suspirou - É a vida. Ainda ontem falei com ele.
- E agora, que fazemos, senhor padre? - perguntou Faustino, com aquele seu jeito algo perdido.
- Agora há muito que fazer. E também vamos precisar da ajuda da tua mulher. O corpo chega aqui pela manhã e tenho um monte de pedidos da viúva - depois olhou para o tecto, como que procurando alguma coisa - Espero não me ter esquecido de nada!
Era a primeira vez que Mariano via uma viúva tão pouco chorosa e tão decidida em aceitar a morte do homem com quem vivera nos últimos dez anos. Era verdade que não conhecia muito bem a mulher elegante e algo distante que estava agora perto dele, e isso constrangia-o um pouco, limitava-lhe o discernimento. Também não podia contrariar aquilo que sempre dizia nos funerais, que era preciso aceitar os desígnios divinos. Constança tinha chegado minutos depois do carro funerário, como se quisesse confirmar que o corpo do marido tinha sido entregue no local certo. Passados uns momentos de estupefacção, Mariano dirigiu-se à viúva, que estava parada à entrada da porta da capela e olhava para o pequeno templo, mas era impossível interpretar o que lhe ia na alma. Dona Constança deu alguns passos em direcção da urna mas depois deteve-se. Estava elegantemente vestida de negro, uma roupa que lhe evidenciava as formas, usava chapéu, tinha o rosto oculto por uma renda também preta e manteve-se algo afastada do caixão enquanto o padre Mariano acompanhava os três profissionais, quais anjos negros, até à saída da pequena capela.
- Um excelente trabalho - disse o sacerdote, mas logo se arrependeu ao pensar no amigo desaparecido. Era a frase habitual, tantas vezes dita sem a mínima convicção.
A urna ficava praticamente ao nível dos olhos de uma pessoa com estatura média, e claramente acima do nível do altar. Aquela posição de relevo tinha sido uma imposição da viúva, apesar da resistência inicial do velho padre Mariano, diácono da diocese e velho amigo e também professor de catequese do falecido.
Não sei se será boa ideia elevar o Joaquim acima do altar - disse com voz hesitante, olhando fixamente para o rosto da Senhora Dona Constança de Castro Pereira que tinha finalmente retirado o véu. Ainda era uma mulher bonita, apesar da idade, e os anos tinham-lhe oferecido uma aura de mistério que intrigava qualquer um.
Foi um último pedido de Joaquim, que só ele poderá justificar - argumentou ela e isso teve o efeito de um decreto na mente do velho pároco, que finalmente recuperou o controlo das emoções - E agora será muito difícil pedir explicações ao meu defunto.
Era pois uma última vontade de Joaquim Pereira, e contra isso nada podia ser feito.
Aquela argumentação era inatacável, e Mariano acabou por ceder. Duvidava muito que tivesse sido ideia de Joaquim, conhecia-o suficientemente bem para não acreditar que quisesse ficar acima de toda a gente depois de morto, mas já não tinha forças nem vontade para rebater aquelas palavras. Limitou-se a anuir com um movimento subtil de cabeça e a abrir os braços de forma teatral enquanto emitia um som praticamente indecifrável. Voltou-se para o falecido e de seguida colocou a mão de uma forma suave, quase a medo, sobre a urna do amigo agora desaparecido.
Sim, desaparecido! - pensou, enquanto fechava os olhos sem largar a mão da urna, postura que a viúva tomou por uma oração de despedida e por isso se manteve imóvel e silenciosa, um pouco atrás. Mariano não acreditava muito naquela tese antiga a que muitos chamavam alma primitiva, que defende que a pessoa e o cadáver não são duas entidades distintas, são um e o mesmo ente, cuja dualidade e presença em dois lugares distintos não prejudica a individualidade.
Será mesmo isto que a tese diz?- interrogou-se, mas logo abandonou esses pensamentos para se concentrar na fragilidade da vida. Já celebrara a morte imensas vezes e continuava sem perceber o mistério apesar das palavras seguras com que transmitia a certeza da vida eterna.
Talvez quando me tocar a mim, as dúvidas se dissipem - pensou, enquanto tentava adivinhar o estado do rosto do amigo que tinha sido coberto por um lenço opaco de cambraia, a pedido da viúva - Ou talvez não, mas nunca serei capaz de revelar a verdade.
- Que Deus o tenha em sua guarda - acabou por dizer, em voz sumida, e depois afastou-se do corpo de Joaquim, a criança e o jovem simples que se tornara um vencedor da vida e transformara por completo a face daquele lugar esquecido dos homens, a aldeia de Castanheira Grande, entalada entre duas serras, esquecida pelos governantes.
- Bem merece esta distinção - reconheceu, para agradar à viúva, depois de passar os olhos pela disposição dos bancos corridos, em forma de U, abraçando a urna onde Joaquim repousava com os pés virados para o altar.
Mariano já perdera o conto aos funerais que celebrara naquela capela, e também já memorizara os passos necessários para chegar ao cemitério, subida a Rua de Santo António lá em cima no montado, bem perto do famoso cerejal da Dona Eduarda Taveira, proprietária rural viúva de longa data, a quem era imputado um terrível mau feitio.
Talvez seja por morar perto do cemitério que ela tem aquele feitiozinho - disse-lhe uma vez o Conde José de Albuquerque, um amigo de infância, rico proprietário e grande benemérito da terra, cujo único filho e herdeiro acabaria por cair em desgraça depois da morte prematura dos progenitores.
Cabra amarela! - lembrou-se Mariano da alcunha pouco abonatória de Eduarda, e não conseguiu evitar um ténue sorriso a esta recordação, facto que não passou despercebido à viúva.
- Lembrou-se de algum facto feliz, senhor padre? - perguntou Constança de Castro com um ar irónico, mas o velho padre não se perturbou e emitiu uma frase enigmática:
- A morte pode ser uma libertação, minha filha!
Constança estava impecavelmente vestida com um fato preto que lhe ficava particularmente bem. Era uma mulher alta, ainda com um corpo elegante, apesar de estar prestes a deixar a casa dos sessenta, e a seu lado o padre Mariano parecia algo deslocado, enfiado naquela sotaina que já tinha visto dias melhores, o cabelo ralo mal aparado, a barba de dois dias, a pele um pouco escamada por evidente falta de tratamento ao longo da vida.
- Foi um casamento curto! - disse Mariano em voz baixa, sem saber porquê, como se pensasse alto, mas logo se arrependeu. Disfarçou o embaraço ao voltar-se para trás para dar autorização ao sacristão, entretanto surgido vindo da sacristia, para ligar os círios eléctricos.
Felizmente a viúva teve uma reacção positiva, e isso aliviou-lhe a mente:
- Mas muito feliz, senhor padre Mariano - limpou uma lágrima furtiva num momento de aparente fragilidade - Mas muito feliz!
O velho pároco agarrou-lhe as mãos que afagou com carinho, e depois olhou para cima tentando adivinhar as emoções da mulher. Dona Constança era mais alta que ele, e aqueles sapatos de salto alto ainda acentuavam mais a diferença de estatura. Acompanhou-a ao exterior, caminhando devagar pelo corredor central, de mãos entrelaçadas num raro momento de aparente comunhão de sentimentos.
- Precisa de alguma coisa, Dona Constança? - perguntou Mariano já perto da porta da Igreja.
- Reze por mim, senhor padre - disse, num tom indefinido, depois de ter baixado de novo a renda preta daquele magnífico chapéu preto que encomendara a um fabricante parisiense meses antes. Não queria que lhe vissem o rosto choroso, segundo disse ao padre, num momento de aparente fraqueza.
- Por nós, minha filha - disse, respeitosamente - Então até às oito, no velório.
Mariano ficou ainda a vê-la entrar para a traseira do carro, e aquela era uma imagem que o havia de acompanhar ao túmulo, como pensou. O elegante motorista, um jovem desconhecido talvez na casa dos trinta, impecavelmente vestido, apressou-se a abrir-lhe a porta traseira do lado direito, que depois fechou com toda a delicadeza após confirmar que a viúva estava bem sentada. Mariano ainda arregalou os olhos ao ter um vislumbre da coxa direita de Constança, mas lembrando-se da sua condição, acabou por se fixar no motorista que lhe fez uma respeitosa e subtil vénia antes de contornar o magnífico Mercedes e se sentar ao volante. Quase podia jurar que Constança estava feliz no momento que o carro arrancou com estilo, conduzido pelas mãos hábeis do jovem, e pareceu-lhe ver na curta troca de olhares entre os dois, uma certa dose de cumplicidade. Fechou depois lentamente a porta da capela atrás de si, com a testa franzida pelos pensamentos impuros que lhe povoavam a mente, mas ainda teve tempo de verificar que já eram muitos os populares curiosos que se acercavam do templo, ansiosos por prestar as derradeiras homenagens a um homem notável. A notícia correra célere, como seria de esperar num meio pequeno. Afinal não tinha sido a única testemunha daquela cena extraordinária. Ainda teve a lucidez para confirmar o horário do velório, afixado naquele pequeno quadro onde sobressaía uma fotografia antiga de Joaquim Pereira, fornecida pela AFB. Aproximou-se de novo da urna, de cabeça baixa, imerso nas suas cogitações. Aquele velório iria ser um verdadeiro desafio à sua fé.
- Já reparou, senhor padre Mariano? - perguntou o sacristão, olhando para o corpo de Joaquim.
- Reparei em quê, Faustino?
- Na cara do senhor Joaquim Pereira!
- Que tem, Faustino? - pergunta Mariano, e apressou-se a destapar o lenço e a observar o rosto do amigo com alguma atenção, sem lhe notar qualquer particularidade. Era a primeira vez que olhava para o amigo agora sem vida. Joaquim Pereira estava, como todos os mortos, estendido de uma maneira particularmente pesada, cadavérica, os membros rígidos profundamente enterrados no acolchoado do caixão, a cabeça pousada para a eternidade na almofada. Contudo, ao invés da generalidade dos mortos, não apresentava uma tez amarelada, de icterícia ou cera, nem tinha as têmporas cavadas e nuas como Mariano se habituara a ver nos que abandonavam o corpo. Os olhos estavam abertos e pareciam fixá-lo com interesse, como se o tentasse avisar de alguma coisa, se bem que o padre pressentisse que a mensagem não lhe era destinada.
O seu coração acelerou, ainda tentou fechar os olhos ao velho amigo, mas para sua surpresa as pálpebras voltavam sempre a abrir-se, e assustado com o estranho facto, apressou-se a colocar o lenço sobre aquele rosto que parecia desafiar a morte.

- Parece vivo, não é verdade? - perguntou Faustino, abrindo-se num sorriso que mais parecia um esgar, mas Mariano não respondeu, limitando-se a limpar com a ajuda da palma da mão direita o suor frio que lhe inundava o rosto.

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