Encosto-me ao parapeito e olho o horizonte.
É uma atitude que ultimamente assumo a horas mortas, quando o dia já quase que o não é, mas ainda se notam os reflexos dourados nos prédios altos do lado nascente, que o astro-rei já não vislumbra.
A vantagem de se habitar o último andar do último prédio da rua, que desemboca num parque público é evidente.
O trânsito é diminuto ou nulo, e posso olhar sem ser interrompido pelas buzinadelas, pelo chiar dos travões dos carros conduzidos por pessoas apressadas, pelos gritos estridentes de graúdos e miúdos em correrias infernais.
Ao invés, posso contemplar a natureza, aquela que quase por milagre foi mantida intacta, e até me dou ao luxo de escolher os ângulos de visão, aproximando-me ou afastando-me do parapeito, de modo a dar a ilusão de que tenho à minha frente uma mata densa, de que estou de facto no meio de uma floresta tropical.
Mas esta ilusão é apenas dos sentidos.
A mais importante, a que me transporta para o quase êxtase e me dá a sensação de estar no centro do mundo, ou mesmo no fim do mundo, é a de ver nessas alturas, a horas certas, a vida como uma antecâmara de algo superior, de que apenas vislumbro os recortes, a periferia, mas que me dá a certeza de que a minha posição é privilegiada, uma espécie de antecâmara para outra dimensão, que existe de facto, mas cuja entrada tem que ser conquistada, não apenas imaginada.
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