sábado, 10 de março de 2012

B

“Vejo que já a sabes toda. Poderia dizer que estou admirado, mas em ti, meu caro, já nada me surpreende. De facto o Estado precisa da religião de modo a ter uma ideologia que funda a desobediência com o pecado”.


“No fundo quem desobedecer ao industrial, desobedece a Deus”, sintetiza B, com um sorriso indulgente, a que o pai responde imediatamente, com um ar subitamente sério:

“Não menospre...zes essas pequenas, grandes ideias. Tem funcionado. Os homens hesitam menos em prejudicar um homem que se torna amado do que outro que se torna temido”.

“É natural. O amor mantém-se por um laço de obrigações que, em virtude de os homens serem maus naturalmente, dada a sua natureza humana, se quebra quando surge ocasião de melhor proveito”, filosofa B, lembrando-se das magistrais lições do seu professor de Filosofia, António Gomes.

“Eu não diria melhor. O medo, esse mantém-se por um temor do castigo que nunca nos abandona”, profetiza Bartolomeu.

“Sendo aceitável esta noção maquiavélica, que poderemos nós esperar de uma relação?”, interroga-se B, que adorava argumentar filosoficamente.

“Maquiavel! Italiano, como a família da tua mãe. Um mestre a seguir atentamente. Se somos amáveis, estamos de peito aberto à traição dos que dizendo amar-nos, apenas espreitam a oportunidade de quebrar os invisíveis laços; se somos temidos, apenas podemos esperar uma falsa adoração”, diz Bartolomeu Caldaços, perante a admiração de B, que desconhecia essa faceta do progenitor.

“Como é difícil a vida de um político ou de um amante”, conclui B

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