“Enquanto houver burros, tem que haver quem os toque”, dizia no fundo do autocarro o corpulento passageiro, que falava pelos cotovelos, perante a admiração de todos, ainda mal habituados à recente liberdade oferecida ao país, depois de anos de ditadura, espartilho e contenção.
O homem, que apanhara o autocarro nos Restauradores, tinha um aspecto desmazelado, de camisa de fora das calças, aos quad...rados, barba por fazer, despenteado, e falava de tal maneira alto que ninguém lhe podia ficar indiferente.
O autocarro quarenta e dois subia a Fontes Pereira de Melo, e com um esgar de dor vindo do fundo das suas velhas entranhas, que se manifestou por uma chiadeira monumental, curvou à direita para se deter na paragem mesmo a meio da praça do Saldanha, no lado oposto ao Monumental.·
O corpulento passageiro quase tombou para cima da velha senhora do banco da direita, mas conseguiu equilibrar-se, e com um pedido de desculpas, dirigiu-se para a saída.
B, que seguia no banco de trás, e a tudo assistia com um sorriso nos lábios, esperou pacientemente que os passageiros à sua frente saíssem, tarefa complicada pela lentidão com que o corpulento passageiro avançava até à frente do autocarro, cumprimentando à direita e à esquerda. Finalmente, e já com um coro de protestos monumental, detém-se perto do motorista, que a tudo assistia impávido e sereno, e diz:
“Manuel Rebolo, presidente de Junta de Freguesia de Arroios, à vossa disposição. Viva o MFA e a Liberdade”.
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