quarta-feira, 14 de março de 2012

40 anos de Maio de 1968

ALAIN GEISMAR
JACQUES SAUVAGEOT
DANIEL COHN-BENDIT


01 de Maio de 1968
Desfile tradicional da CGT, PCF e PSU da République até à Praça da Bastilha.
02 de Maio de 1968

Novos incidentes entre os estudantes e a polícia em Nanterre, sendo encerrada a Faculdade de Letras.
03 de Maio de 1968

Realiza-se no pátio da Sorbonne uma reunião de estudantes convocada pela UNEF (União Nacional dos Estudantes Franceses). Nessa madrugada, grupos de extrema-direita haviam pegado fogo às instalações da UNEF na faculdade de Letras, pintando cruzes célticas. Os estudantes exigem o acesso aos anfiteatros. O reitor Roche, quebrando uma regra que vinha da Idade Média, convida a polícia a entrar nas instalações universitárias. A polícia de choque – os CRS (Companhias Republicanas de Segurança) – cercam a Sorbonne e entram nas instalações, procedendo à detenção de numerosos estudantes. As carrinhas da polícia que transportavam os detidos são atacadas pelos estudantes com gritos “CRS = SS”. Cerca das 20 horas, o reitor manda encerrar a Sorbonne e o anexo de Censier e é retirado sob protecção policial. Entretanto, são detidos durantes as manifestações no Quartier-Latin cerca de 600 jovens. Nesse mesmo dia, o jornal L’Humanité, órgão do PCF, publicava um editorial de Georges Marchais, secretário para a organização e futuro secretário-geral, atacando a luta estudantil e, em especial “o anarquista alemão Cohn-Bendit”, a quem as autoridades apelidavam também de “judeu alemão”.
04 de Maio de 1968

São condenados a multas vários manifestantes presos na véspera. Daniel Cohn-Bendit, Jacques Sauvageot, vice-presidente da UNEF e Alain Geismar, secretário do Sindicato do Ensino Superior (SNE-sup) tornam-se os rostos mais conhecidos da contestação estudantil. Entretanto, a UNEF e SNE-sup, reunidos na rua Monsieur le Prince, onde funcionará durante várias semanas o quartel-general da revolta estudantil, apelam à greve geral ilimitada dos estudantes.
05 de Maio de 1968

Os tribunais de Paris continuam a julgar manifestantes, aplicando desta feita penas de prisão efectiva a quatro jovens. Começam a ser afixados os primeiros cartazes, na sua maioria produzidos com meios rudimentares em Belas-Artes, designadamente por processos serigráficos – ao longo do Maio de 68 referem-se cerca de 350 cartazes diferentes, que terão totalizado mais de 600.000 exemplares, limitando-se alguns a reproduzir as palavras de ordem do momento, revestindo a forma de jornais murais, enquanto outros recorrem a desenhos e caricaturas espontâneas e também de desenhadores conhecidos.
06 de Maio de 1968

Cohn-Bendit e outros 5 estudantes são convocados pela Comissão Disciplinar da Universidade. Novas manifestações. Mais de 15.000 pessoas tentam ocupar a Universidade, que continua nas mão da polícia de choque. Primeiras barricadas. A polícia realiza mais de 400 detenções e registam-se 487 feridos.
07 de Maio de 1968

Grande manifestação estudantil reúne mais de 50.000 pessoas e percorre a margem sul, de Denfert-Rochereau até à Etoile, evitando a polícia concentrada no Quartier Latin. A direcção da UNEF manda dispersar a manifestação mas militantes maoistas conseguem dirigi-la para confrontos directos com a polícia, que duram toda a madrugada.
08 de Maio de 1968

O ministro da Educação, Alain Peyrefitte, anuncia na Assembleia Nacional a reabertura da Sorbonne e Nanterre “se a desordem não se repetir”. À noite, novas manifestações estudantis e barricadas no Quartier Latin reúnem mais de 30.000 pessoas.
09 de Maio de 1968

O reitor reabre a Sorbonne e Nanterre, que continuam ocupadas pela polícia. Alain Geismar, dirigente do SNE-sup, apresenta a sua auto-crítica perante milhares de estudantes por ter procurado chegar a acordo com o reitor. O intelectual do PCF Louis Aragon é violentamente criticado pelos estudantes quando tenta dirigir-lhes a palavra, acabando por se comprometer a abrir as páginas da revista que dirige, "Lettres françaises".
10 de Maio de 1968

Manifestações diante da prisão de La Santé. A polícia bloqueia as pontes do rio Sena para a margem direita. Os estudantes ocupam o Quartier Latin e montam mais de 60 barricadas. Após horas de conversações, a polícia de choque ataca as barricadas cerca das duas da manhã. Os confrontos, de enorme violência, prolongam-se pela madrugada, recorrendo os estudantes aos paralelipípedos da calçada. Algumas rádios periféricas, cujos emissores operam no exterior, designadamente no Luxemburgo e Monte Carlo, transmitem em directo as negociações e, depois, as cargas policiais e os confrontos, enquanto a televisão (ORTF) apenas passa as posições governamentais.
11 de Maio de 1968

AS principais confederações sindicais – CGT, CFDT e FEN – convocam uma greve geral para o dia 13 de Maio. A Associação francesa dos críticos cinematográficos e jornalistas da televisão apelam à suspensão do Festival de Cinema de Cannes no dia da greve geral. O Primeiro-Ministro, Georges Pompidou, interrompe a visita que estava a fazer ao Afeganistão e, no regresso, anuncia a abertura da Sorbonne para esse mesmo dia 13.
12 de Maio de 1968

Pompidou promete a libertação de todos os detidos durante as manifestações. Entretanto, grupos de jovens operários juntam-se às manifestações estudantis.
13 de Maio de 1968

O tribunal da Relação coloca em liberdade provisória os condenados do dia 5 de Maio. A Sorbonne é aberta e, de imediato, ocupada pelos estudantes. A greve geral é um facto em todo o país. No Festival de Cannes, todas as projecções de filmes são suspensas. Há manifestações em toda a França. Em Paris, desfilam mais de 800.000 pessoas entre a gare de l'Est e Denfert-Rochereau e, no final, os estudantes não aceitam a decisão de dispersar tomada pelos dirigentes sindicais e continuam até ao Champ de Mars.
14 de Maio de 1968

Iniciam-se greves espontâneas: na Lorena (fábricas Claas), em Nantes (Sud-Aviation, com ocupação e sequestro do director), etc. O Presidente da República, general De Gaulle, parte em visita oficial à Roménia. O PCF e a FGDS apresentam na Assembleia Nacional uma moção de censura ao governo.
15 de Maio de 1968

Estudantes ocupam o teatro Odéon. Os operários das fábricas Renault, em Cléon, decretam a greve e ocupação ilimitada, hasteando bandeiras vermelhas. O movimento estende-se a numerosas fábricas da região.
16 de Maio de 1968

Estende-se o movimento grevista a mais de 50 empresas: entre elas, a Renault de Flins e a Renault-Billancourt, a principal instalação fabril do país. A Academia Francesa é ocupada.
17 de Maio de 1968

Mais de 200.000 operários em greve. Os sindicatos tentam impedir a aproximação entre os operários e os estudantes, designadamente nas fábricas de Billancourt. 1.500 profissionais do cinema e do jornalismo criam os “Estados Gerais do Cinema”, ocupando as instalações onde decorria o Festival de Cannes. Começa a greve da televisão (ORTF). François Mitterand reúne-se com Waldeck-Rochet, secretário-geral do PCF. Paris está ocupada por 70.000 polícias.
18 de Maio de 1968

De Gaulle regressa da Roménia. A greve geral já envolve mais de 2 milhões de trabalhadores, bloqueando toda a actividade económica.
19 de Maio de 1968

A emissão da ORTF passa a estar controlada pelos jornalistas e pelos técnicos. Começam a verificar-se filas diante das lojas, faltando muitos produtos.
20 de Maio de 1968

Ocupação do porto de Marselha. As centrais eléctricas e de telefones estão bloqueadas. O secretário-geral da CGT, de orientação comunista, pronuncia-se contra o carácter insurreccional da greve. Sartre responderá: “os comunistas temem a revolução”.
21 de Maio de 1968

A greve estendeu-se a mais de 7 milhões de trabalhadores. O secretário-geral do PCF propõe a outros partidos de esquerda a criação de um grupo unido da esquerda. Jean-Paul Sartre dirige-se aos estudantes na Sorbonne ocupada. Todos os teatros de Paris são ocupados.
22 de Maio de 1968

Cresce a greve geral. A moção de censura contra o governo é derrotada no Parlamento, embora por apenas 11 votos. É retirada a Daniel Cohn-Bendit, que tem nacionalidade alemã, a licença de permanência em França, quando ele está a participar numa manifestação em Amsterdão. Manifestantes atacam a sede do “Comité de Defesa da República”, criado em apoio a De Gaulle e ao governo. As centrais sindicais apelam ao diálogo com o governo.
23 de Maio de 1968

A greve alastrou a mais de 10 milhões de trabalhadores. Novas manifestações, barricadas e confrontos no Quartier Latin. A central sindical CGT recusa-se a apoiar as manifestações contra a proibição de permanência de Cohn-Bendit em França.
24 de Maio de 1968

Continuam os confrontos e as barricadas nas principais cidades francesas. A Bolsa de Paris é atacada por manifestantes. De Gaulle fala ao país (7 minutos) e promete um referendo no prazo de um mês. A noite salda-se com centenas de feridos, um manifestante é morto em Paris e um comissário de polícia em Lion.
25 de Maio de 1968

Prosseguem as manifestações e confrontos. Barricadas em Bordéus e em diversas zonas rurais. Nas instalações do Ministério dos Assuntos Sociais, Rua Grenelle, sindicatos, confederações patronais e governo iniciam negociações.
26 de Maio de 1968

São racionados os combustíveis. De Gaulle dá ordens a Jacques Foccart para a organização de uma manifestação de apoio a realizar nos finais de Maio. [Jacques Foccart, mais conhecido pela sua acção neo-colonial em África, tentou criar, em Maio de 68, um movimento estudantil próximo do governo, ao mesmo tempo que se dedicava a "acções especiais".]
27 de Maio de 1968

Às 07.15, é assinado na Rue Grenelle um acordo entre o governo, o patronato e os sindicatos, que é recusado pelos operários da Renault de Boulogne Billancourt – o acordo prevê, designadamente, o aumento do salário mínimo, a redução dos horários de trabalho e a baixa da idade de reforma.
28 de Maio de 1968

Demissão do ministro da Educação, Alain Peyrefitte. François Mitterand anuncia a sua candidatura em caso de vacatura da Presidência da República e propõe a constituição de um governo liderado por Pierre Mendès-France – o PCF não apoia. A CGT apela a uma manifestação em Paris para o dia seguinte.
29 de Maio de 1968

A manifestação convocada pela CGT reúne 500.000 pessoas em Paris. De Gaulle adia o Conselho de Ministros, criando pânico no próprio governo, e desaparece (saído do palácio do Eliseu às 11.15, só chega à sua casa de Colombey-les-deux-Eglises por volta das 18.30) – deslocara-se em segredo à base francesa de Baden Baden, para obter o apoio militar do general Massu, comandante das tropas francesas na Alemanha. Pierre Mendès-France afirma estar disponível para assumir a chefia de um governo provisório. [Jacques Massu, general para-quedista, conhecido pelo emprego sistemático da tortura durante a guerra da Argélia.]
30 de Maio de 1968

O general De Gaulle anuncia, às 16.45, a dissolução da Assembleia Nacional, recusando demitir-se e anunciando eleições antecipadas para Junho. Ao mesmo tempo, adia o referendo que prometera a 24 de Maio e ameaça recorrer às forças armadas. Nesse mesmo dia, realiza-se nos Campos Elísios uma manifestação de apoio, encabeçada por André Malraux, que reúne mais de 800.000 pessoas.
31 de Maio de 1968

De Gaulle procede a uma remodelação governamental. Prosseguem, por toda a província, manifestações de apoio ao general. Nesse fim-de-semana, muitos bens e serviços essenciais voltam a estar parcialmente disponíveis. Durante o mês seguinte, verificam-se confrontos violentos: designadamente, ocupação pela polícia, na noite de 6 de Junho, das fábricas Renault de Flins, morte a 10 de Junho do estudante liceal Gilles Tautin, morte a tiro do operário Pierre Beylot a 11 de Junho, nas fábricas Peugeot de Sochaux, morte do operário Henri Blanchet. Na primeira e segunda voltas das eleições legislativas (24-30 de Junho), a maioria governamental alarga-se substancialmente, alcançando quase 80% dos assentos parlamentares.

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