quarta-feira, 14 de março de 2012

Locke

Os presságios avolumam-se.
Devo então falar dos iluministas numa altura de pré-escuridão.
Com John Locke, a concepção do que é o homem volta a aclarar-se.
Gosto muito de John Locke, pois tomei contacto com ele aos 14 anos, quando entrei na fase da heterossexualidade, e deu-me algumas pistas.
Aliás, a Filosofia só tem algum interesse se nos ajudar a crescer.
O seu pai foi um íntegro partidário do Parlamento, e ele próprio torna-se o médico particular do primeiro lider do partido dos whigs, do Earl of Shaftesbury, e perceptor do neto deste, que mais tarde se tornará ele próprio um filósofo proeminente.
Locke escreveu duas obras que se enquadram entre as obras mais influentes de todos os tempos. Na primeira, "Um ensaio sobre o Entendimento Humano", ele dá razão a Hobbes quando admite que não existem ideias inatas, mas que todas as nossas concepções mentais têm origem em percepções sensoriais e que cada ser humano é uma folha em branco (tábua rasa), apenas preenchida pela experiência.
E dá razão a Descartes aceitando que apenas aquelas qualidades da realidade são autênticas e podem ser medidas matematicamente, e que todas as outras, que ele designa por secundárias, apenas resultam de combinações entre estas qualidades primárias.
O que é decisivo para Locke é a qualidade primária do movimento: com o descobrimento da gravitação por Isaac Newton, seu amigo, este tinha elevado o movimento uniforme ao novo ideal da ordem natural (tal como mais tarde, Albert Einstein irá fazer com a velocidade da luz).
Locke desloca a força da gravidade para o interior do homem e ali descobre a sucessão uniforme das ideias no espírito.No entanto, a procissão das ideias tem de ser observada a partir de uma instância que, por seu lado, tem uma certa durabilidade se for para ser percepcionada como uma unidade.
Para Locke, é precisamente esta relação interior observável entre a duração e a mudança que perfaz o sujeito.
O material de que são feitos os sujeitos é o tempo, e a forma como eles se organizam é a reflexão.
Esta obra tornou-se um marco no desenvolvimento da epistomologia (Filosofia do Conhecimento), e no livro de culto do Iluminismo Francês.
Foi ela que forneceu a plataforma sobre a qual toda a Filosofia subsequente até Kant formulou os seus problemas, do mesmo modo que acelerou a subjectivação (a introspecção ) da literatura no romance, tendo exercido uma grande influência sobre literatos, artistas e psicólogos, e foi ponto de partida para a libertação sexual da mulher do século XX.
Mais importante ainda terá sido a sua grande segunda obra, intitulada " Dois Tratados sobre a Governação", partindo Locke da hipótese de um Estado natural pré-societário mas que não é caracterizado pela guerra de todos contra todos, mas pela igualdade e liberdade de todos os indivíduos. Tal como em Hobbes,estes celebram um contrato, não delegam (transferem) os seus direitos num monarca absoluto, mas na própria sociedade.
A liberdade e a propriedade são pensadas em conjunto, não sendo colocadas em oposição mútua como mais tarde acontecerá com o Socialismo (não o de Sócrates).
Daí resultava uma consequência: um governo podia ser derrubado, se dispusesse da liberdade ou da propriedade dos cidadãos sem o consentimento dos mesmos.
Esta obra, para quem duvida da Filosofia, ou melhor, da sua importância, tornou-se na MAGNA CARTA da democracia burguesa e é considerada a primeira garantia dos direitos de liberdade.
Por si só, essa obra justificou a Glorious Revolution de 1688, a Revolução Americana de 1776 e a Revolução Francesa de 1789 .
A declaração de Independência dos Estados Unidos da América adopta quase à letra algumas das formulações de Locke.Esta, por seu lado exerce uma influência notória sobre o articulado da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão da Revolução Francesa. A teoria constitucional é importada para o continente por Voltaire e Montesquieu que a guardam no seu entreposto e, ampliada pelo poder judicial, a reexportam para a América; ela tornar-se -ia a grande obra de legitimação da doutrina da soberania popular e dos direitos humanos e da divisão de poderes num governo controlado pelo parlamento e, com isso, a base da civilização política que todos reconhecemos como nossa.A guerra civil, evocada por Hobbes como sinónimo de horror, transforma-se, pela diferença entre o governo e as oposições, na guerra civil pacífica das opiniões; assim, Locke aponta a via real para uma sociedade civil.

Digam lá agora que a Filosofia não interessa a ninguém!
Quando pensarem no nosso (e no dos outros países) sistema político, tirem o chapéu a John Locke.

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