quarta-feira, 14 de março de 2012

Democracia moribunda

São muitos os presságios.
Diria mesmo que se acumulam exponencialmente.
É assim que eu antevejo a Morte da democracia, e para tal peço a ajuda de Stephen..

Os segredos dela: velhos leques de plumas, cartões de dança, debruados, com borlas, polvilhados de almíscar, uma bugiganga com contas de âmbar numa gaveta fechada.
Quando era menina, pendia, na janela solarenga de sua casa, uma gaiola com um pássaro. Escutava o velho Royce a cantar a pantomina do Turco, o Terrível, e ria-se, com os outros, quando ele trauteava:
Eu sou o rapaz

que sabe gozar
a invisibilidade

Alegria fantasmagórica, entrelaçada, perfumada de almíscar.
Entrelaçado e desvanecido na memória da Natureza com os seus brinquedos.
Recordações avassalavam-lhe o cérebro meditativo.
O copo de água da torneira da cozinha quando se acercava a hora do sacramento.
Uma maçã sem caroço, recheada de açucar mascavado, a assar, na chaminé, para ela, numa escura tardinha de Outono.
As suas belas unhas rubras com o sangue dos piolhos esmagados, nas camisas das crianças.
Num sonho, silente, viera ter com ela, o corpo corrupto na vasta mortalha escura a exalar um cheiro a cera e a pau de rosa,o seu hálito, inclinado para ela,com mudas, secretas palavras, um vago odor a cinzas húmidas.
Os olhos vidrados, olhando para lá da morte, a estremecer e a submeter a sua alma.
Só a ela.
O círio fantástico alumiando-lhe a agonia.
Luz de fantasmas no rosto torturado.
A respiração rouca, ruidosa,estertorando de horror,enquanto, ajoelhados,todos rezavam. Os olhos dela sobre mim,para me fazerem render......
E o murmúrio terrível, incessante:

Liliata rutilantium te confessorum turma circumdet; iubilantium te virginum chorus excipiat.

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