quarta-feira, 14 de março de 2012

O dedo de Sócrates

Curiosamente foi a bordo de um avião que ouvi as declarações do nosso Primeiro-ministro sobre o cigarrinho que terá fumado sobre o Atlântico.
O que me espanta no meio de isto tudo (o que é espantoso, pois quase nada me espanta) é a polémica.
Mas desde quando é que o legislador, ou o seu mentor, têm que seguir as leis?
As leis são feitas para os que estão adormecidos, inconscientes, e colocam invariavelemente o pé na argola, sem direito a reclamar inconsciência.
Ora o nosso Primeiro-ministro veio imediatamente dizer (a isso foi obrigado) que estava consciente da sua inconsciência, pedir desculpa e que ia deixar de fumar.
Espantoso.
E de tal modo o é, que tenho que contar uma história verdadeira.

Um dia, o Presidente estava a proferir o seu discurso matinal e o primeiro-ministro apareceu para o ouvir. Ele estava sentado mesmo em frente do Presidente, na sala de audiências do palácio cor-de-rosa, e mexia continuamente o seu dedo grande do pé esquerdo.
O Presidente parou de falar e olhou para o dedo do primeiro-ministro.Obviamente este deixou de mexer o dedo.
O Presidente retomou o seu discurso e de novo o primeiro-ministro começou a mexer o seu dedo.
-Porque é que está a fazer isso? - perguntou o Presidente, visivelmente irritado.
-Só quando Sua Excelência parou de falar e olhou para o meu dedo do pé é que eu me apercebi do que estava a fazer; se assim não fosse, de forma alguma estaria consciente- explicou o primeiro-ministro.
-É apenas o seu dedo do pé e não está consciente...Nesse caso você até pode assassinar alguém e não estar consciente-diz o Presidente.
-Peço desculpa a Vossa Excelência. Prometo que vou deixar de mexer o dedo do pé -responde o primeiro-ministro.

Num estado inconsciente qualquer cidadão fará tudo e de seguida esquecerá completamente o que lhe aconteceu.
E é assim que as pessoas se apaixonam, se matam umas às outras, cometem suicídios, chegam a primeiro-ministros, promulgam leis.
Boa viagem.

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