Caminhei para o rio, através do voo errabundo das abelhas,negras e amarelas.
A água era escassa,lenta e lodosa.
Apesar disso, o rio encantou-me.
Caminhando pela margem, o rosto ao vento, e pisando no chão as borboletas imóveis, que a modorra adormecera, cheguei até ao passo.
O barco esperava-me e, num instante, estava do outro lado.
Confesso que tinha uma certa curiosidade em ver o Barqueiro, mas não o consegui vislumbrar.
Porque prefiro a outra margem?
Porque ali são mais copadas as árvores e o capim mais alto? Não, não é esse o motivo.
Amo as paisagens nuas, onde o Sol pode,como um vagabundo,estirar-se todo o dia.
Amo, talvez, a outra margem, porque é a outra - porque não é a minha; porque não é aquela a que me via obrigado a voltar todas as noites.
Amo a outra margem pelo silêncio, sim, é isso, o silêncio, a ausência de qualquer som humano ou animal.
Amo a outra margem pois não necessito dar ou receber seja o que for.
Caminhei um pouco.
Na primeira curva esperava-me o Demónio, como tinha sido combinado.
Partimos em silêncio, sem sequer nos cumprimentarmos.
Ao sairmos da vista do rio, o Demónio continuava silencioso, mas pareceu-me mais vivo e imperioso que nunca, e tive de morder os lábios para não gritar.
Seria este o preço da liberdade?
Chegámos finalmente a um velho cipreste, que balançava um pouco o alto cimo, com um ar misto de impaciência e censura.
...(aqui lembrei com saudade os meus amigos...)
Sentámo-nos com as costas apoiadas ao amplo e maciço tronco e o Demónio continuou calado.
Então, como se no mais profundo de mim se houvesse aberto de repente algum veio interior, senti borbulharem e sairem aos borbotões as palavras que havia de dizer:
«Mestre e amigo: chegou para ti o dia da tentação. Já não és capaz de tentar os homens e sucede que os homens vêm tentar-te.
Notei que o Demónio chorava e vi pela primeira vez os seus olhos rasos de água. Lágrimas de pesar, de raiva, de alegria? Durante o dia inteiro reflecti sobre isso e não soube o que resolver.
Agora, espero que a noite chegue para lho perguntar, em sonhos.
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