quarta-feira, 14 de março de 2012

Como surge um autarca

Francisco nasceu prematuro no seio de uma família abastada do Algarve; a mãe, Quitéria, nunca se conformou com a ideia de ter gerado um filho de um homem que a abandonou duma forma miserável antes da feliz hora.
Quanto mais o pequeno florescia, mais ela se afundava num abatimento obstinado.
Desde o dia em que soubera da fuga do seu amado, agravara-se a estranha moléstia do período de gravidez, recusara resposta a todas as questões, falava apenas quando estava sozinha, mas de forma tão incompreensível, que mais parecia outro idioma.
Nem olhava para o filho quando o traziam para mamar ao peito mirrado e quase seco, apesar do leituário que lhe haviam posto ao pescoço, um amuleto de ágata engastado em prata, retirado do espólio da sua bisavó Cremilde.
Quando fez um ano, Francisco viu-se pela primeira vez sobre um cavalo, um lusitano de grande mansidão, nado e criado na propriedade de Quarteira, indiferente às alturas e às mãos femininas estendidas na prevenção da queda, apesar das pragas do avô Domingos, indignado com os terrores do mulherio inconsciente.
Aos três anos, tentando substituir um ganhão na rabiça do arado, escorregou e bateu com a cabeça no ferro, abrindo no sobrolho um lanho que lhe deixaria a primeira e mais feia das futuras cicatrizes.
Francisco foi enviado para um colégio no Porto onde deveria aprender tudo aquilo que lhe seria indispensável para poder estar a um nível intelectual apreciável; a sua perspicácia era inata , e como tal deveria ser potenciada .Durante esses anos, a sua presença nas terras familiares apenas era notada em períodos de férias e servia para se percepcionar a sua evolução quer em termos físicos quer de carácter.
Finalmente regressado dos estudos, Francisco regressa a Casa, e depressa começa a praticar aquela que seria uma das suas vocações - as mulheres.
Com efeito, das de menos de trinta anos, rara era a que não lhe sentira ainda o peso do corpo, fosse no campo ao entardecer, na sombra de umas rochas à beira mar, ou no conforto de uma cama, sendo tão violento o seu apetite que não olhava à beleza ou perfeição de formas, mas somente ao viço natural da idade jovem.
Revelava-se assim um autêntico garanhão e pouco prudente nos afectos clandestinos, a ponto da sua mãe dizer, com azedume amenizado por discreto orgulho, que deixara de haver mulheres sérias no Algarve desde o regresso do filho…
Se não era homem de afectos prolongados, tão-pouco a sua volubilidade se poderia considerar leviana.
Para ele, possuir uma mulher diferente todos os dias, embora pouco tempo depois devesse voltar às já suas conhecidas, pois o seu número limitado não permitia uma constante renovação, era apenas um ritual, mais devedor de obrigação do que do prazer, idêntico ao de se aperaltar nos fins de tarde, ou de fazer um discurso político…
Começou então , paralelamente à actividade de correr as mulheres da região, a fazer discursos políticos nas Festas de Verão ,na Pontinha ou no Pontal, que eram música para os ouvidos atentos dos proprietários algarvios, e onde Francisco rapidamente vislumbrou a possibilidade de saciar um segundo prazer, que lhe abriria as portas não dos flancos dourados do gineceu, mas das bolsas recheadas por décadas de exploração……
Ele anda por aí...

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