quarta-feira, 14 de março de 2012

O amor possível

O quarto dela era quente e estava bem iluminado.
Havia uma grande boneca, sentada, de pernas abertas, no grande cadeirão ao lado da cama.
Ele tentou forçar-se a falar, para parecer à vontade, observando-a enquanto despia o vestido, reparando nos movimentos conscientemente orgulhosos da sua cabeça perfumada.
Enquanto ele se mantinha silencioso no meio do quarto, ela veio ao encontro dele e abraçou-o, com alegria e gravidade.
Os seus braços arredondados apertavam-no com firmeza, e ele, vendo o rosto dela erguido para o seu, com uma tranquila seriedade, e sentindo os movimentos ascendentes e descendentes do seu peito, quente e calmo, enquanto respirava, por pouco não desatou a chorar histericamente. Lágrimas de alegria e de alívio brilhavam nos seus olhos fascinados e os seus lábios entreabriam-se, embora não conseguisse falar.
Ela passou-lhe a mão tilintante pelos cabelos, chamando-lhe patife.
-Dá-me um beijo— disse ela.
Os lábios dele não queriam beijá-la.
Queria ser abraçado com firmeza, acariciado lentamente, lentamente, lentamente.
Nos braços dela, sentia que se tornara subitamente forte e audaz e seguro de si.
Mas os seus lábios não condescendiam a beijá-la.
Com um movimento súbito, ela curvou-lhe a cabeça e uniu os seus lábios aos dele, e ele sentiu o significado dos movimentos dela nos seus olhos francos, voltados para os dele.
Era de mais para ele.
Fechou os olhos, abandonando-se a ela, de corpo e alma, sem consciência de outra coisa que não fosse a pressão tenebrosa dos seus lábios que se entreabriam suavemente.
A sua pressão exercia-se tanto sobre o seu cérebro como sobre os seus lábios, como se fossem o veículo de um vago discurso ; e, entre eles, sentiu uma pressão desconhecida e tímida, mais tenebrosa que o elanguescimento do pecado, mais suave que um som, mais doce que um perfume….

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