quarta-feira, 14 de março de 2012

Mike Plowden

Parece que o estou a ver: passo cadenciado, sorriso largo, franco, amigo, desinteressado.
Relembro os seus grandes jogos e o seu grande coração.

Agradeço-lhe as alegrias que me deu.
Relembro a frase de que ele mais gostava, de Fernando Pessoa: "O ser humano há muito que pratica consigo mesmo um jogo perverso: esconde-se e depois vai à procura de si próprio".Todos pareciam conhecê-lo bem, e era de bom tom cumprimentá-lo efusivamente.
As crianças,sim, gostavam dele e admiravam-no incondicionalmente.
Era ver a alegria e a paciência que ele tinha para assinar o seu nome nos pedaços de papel que a criançada lhe esticava.
Um ídolo, para miudos e graudos.
Um idolo que infelizmente vivia na floresta do esquecimento.
Um ídolo esquecido por aqueles a quem deu inúmeros exitos desportivos, e pela chamada "família do basketebol".
Família que fez juz à definição de ser aquele grupo de pessoas que se reunem nos funerais.
Falava com saudade e emoção da mãe, que não via há anos, sei agora que por dificuldades financeiras graves.
As mesmas que o impediram de ir às consultas de cardiologia, pouco antes de falecer.
Tinha vergonha de pedir mais favores.
Como é possível que as pancadinhas nas costas do ídolo se tenham transformados em empurrões, em constante negação.
Totalmente ostracizado por aqueles a quem o tempo é curto para pensar em como prejudicar os seus competidores, Mike vegetava.
Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra.
Vivemos no lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser.
Mas Mike não se enganava nem enganava ninguém.
Sabia que é efémero o dia de glória.
Sabia que a vida é um jogo viciado.
Sabia que cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o esquecimento de que há outros com alma igual.
Mike sabia.
E creio que a todos perdoou.
Estou a vê-lo, passo cadenciado, sorriso largo, franco.
Estou a vê-lo num campo de basketebol, algures, sem público, gozando infinitamente a sua liberdade.

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