Daqui a uns anos todos diremos que o Henrique era um "tipo porreiro" - dizia o nosso professor de História Universal, António Gomes, dirigindo-se à turma, depois de expulsar da sala, uma vez mais, o nosso colega Henrique.
E de facto tinha razão, pois a Moralidade e nalguns casos, até a Santidade, são apenas uma questão de tempo.
Henrique de facto não era um mau rapaz, era até bastante polido.
Hoje, à distância de muitas décadas, entendo que era um imitador do sistema rígido, da estrutura autoritária, que existia na altura no Liceu Nacional de Faro.
Como podia, ou pensava podê-lo, dada a sua condição social, importunava constantemente alguns colegas (Silva Dias que o diga, constantemente a levar aquilo a que Henrique chamava "estacaços", e que consistia em murros na nuca durante as aulas), não de uma forma particularmente violenta, mas insistente.
A propósito do Silva Dias, fui colega dele na RUPN (Residência Universitária Pedro Nunes), onde encontrei outro alentejano dos quatro costados, o Salgado, famoso pelas "curvas logarítmicas" das suas botas alentejanas.
Hoje Henrique seria considerado um hiperactivo, na altura ainda se desconhecia o termo; eu diria que era um produto do sistema que desde as suas raízes (a escola), tenta impor-se à custa da liberdade individual.
Mas Henrique era extremamente polido.
Polidez que será a primeira das virtudes, e talvez a origem de todas elas.
É contudo a mais pobre, a mais superficial, a mais discutível.
Será mesmo uma virtude?
A Polidez não quer saber da Moral, nem a Moral da Polidez.
Um nazi polido em nada altera o nazismo, o horror...E este nada caracteriza bem a polidez.
Virtude meramente formal, virtude de etiqueta, de aparato.
A aparência, pois, de uma virtude, e não mais do que isso.
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