O quarto deitava sobre a praia ou, mais propriamente, sobre a piscina em forma de gorda lagartixa que entre a praia e as traseiras do hotel a uma luz de velório se espreguiçava.
Perto da meia-noite ainda lá chapinhavam, com paquidérmica languidez, duas planturosas sílfides visivelmente de origem teutónica.
Antes, das bandas de Espanha, tinha-se levantado a lua, em quarto minguante, meio tonta e meio afogueada, como um barco aos tombos desenhados por um bêbado.
Às três da manhã, sem poder dormir, ainda me encontrava sentado cá fora, numa das cadeiras da varanda.
Às três da manhã, sem poder dormir, ainda me encontrava sentado cá fora, numa das cadeiras da varanda.
E, de repente, na varanda ao lado da minha – ao lado, mas complicadamente de esguelha, para que na aparência fosse respeitada a privacidade de uma e de outra - , recortou-se o inesperado vulto de uma jovem e soberba mestiça, muito alta, de olhos esverdeados, com estilizado sarong amarrado acima do peito, os ombros nus, o perfil bem cunhado sobre a luz que vinha do interior do quarto, os olhos perdidos na quase total escuridão do mar.
Não sei quanto tempo ali se manteve, sem um gesto, como se não existisse.
Mistura de arbusto exótico e de atónita fera domesticada, dava a impressão, na ofegante respiração do silêncio, de que só comunicava com o mar e com a noite.
Parecia ter-se enganado de quarto, de hotel, de país, de continente.
Porventura mesmo de planeta.
E de modo irresistível se me afigurava, em negativo, a imagem da própria Sandra.
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