quarta-feira, 14 de março de 2012

Memórias de Adriano

Adriano é meu colega nos anos 60 no Liceu Nacional de Faro.
Hoje penso que ele seria o único aluno verdadeiramente livre e consciente do Liceu.
Na altura pensávamos que era um dos alunos menos brilhantes.
Sempre distraído.
Sempre descriminado pelos professores.
Sempre sem resposta às perguntas.
Sempre feliz.
"Até o Adriano sabe" - era muitas vezes o comentário irónico quando algum colega respondia erradamente a uma qualquer questão.
E mesmo o aluno que não respondia, sorria.
"Até o Adriano sabe" - qualquer outro se sentiria ofendido, vergado sob o peso de tal ironia.
Mas Adriano apenas sorria.
Os professores estavam sempre a dizer ao Adriano, que logo por azar, ocupava a carteira da frente, perto da janela que dava para a mata do Liceu, que prestasse atenção à aula.
Na verdade, Adriano estava extremamente atento,mas a outras coisas.
Se um pássaro cantava, lá fora, na mata, uma bela canção, fora da sala de aula, Adriano prestava atenção ao pássaro.
Adriano não estava distraído.
Estava profundamente concentrado, quase em meditação.
Na verdade Adriano ignorava totalmente o professor e os exercícios de matemática que se escreviam no quadro.
Adriano estava completamente alheado de tudo isso, de todas essas abstrações.
Está absorto na canção do pássaro.
O Professor Gonçalves diz: "Adriano presta atenção! O que estás a fazer?Não te distraias"
Na verdade, hoje sei que quem estava a distrair Adriano é o professor.
Adriano está a prestar atenção ao que é mais interessante.
Ao canto do pássaro.
Ao que o fazia feliz.
Gonçalves e os seus exercícios não eram interessantes.
E Adriano era o único com inteligência para o entender.

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