quarta-feira, 14 de março de 2012

O problema maior

O maior problema do homem, como das nações, é a independência.
Poderá ser solucionado alguma vez?
O que possuimos parece nosso, mas somos sempre possuidos pelo que temos, seja material, espiritual, amoroso......A unica propriedade indiscutível devia ser o EU, e, contudo, vendo bem, onde está o resíduo absoluto que não depende de ninguém?
Os outros participam, ausentes ou presentes, da nossa vida exterior e interior.
Não há forma de nos salvarmos.
Mesmo na solidão perfeita, sentimo-nos, com espanto, uma espécie de átomos de um monte, células de uma colónia, gota de um mar.
Há, no nosso espírito e na nossa carne, a herança dos mortos; o nosso pensamento é devedor dos defuntos e dos vivos; a nossa conduta é guiada, mesmo contra a nossa vontade, por seres que não conhecemos e que desprezamos.
Tudo o que sabemos aprendemos com os outros.
Qualquer coisa que adquiramos é obra de outros, e sem o operário, o artesão, sem o artista, estaríamos mais nus que Job ou Robinson Crusoe.
Falamos uma língua que não inventámos, e os que vieram antes impõem-nos,sem que nos apercebamos, os seus gostos, os seus sentimentos, os seus preconceitos.
Se desmonto o meu EU peça a peça, encontro sempre fragmentos que procedem de fora (não estamos nós a ser condicionados pelo ausente, nesta escrita?).
Até poderíamos etiquetar em cada fragmento a sua origem: isto é da minha mãe, aquilo é do meu irmão, aquilo de Blimunda, isto de Knulp, a outra de Sofia....
Se realizarmos a fundo o inventário das apropriações, o EU converte-se numa forma vazia, numa palavra sem sentido próprio.
Pertenço a uma classe, a um povo, a uma raça; não consigo evadir-me, faça o que fizer, de certos limites que não foram traçados por mim ( Knulp tentou e fracassou...ainda não lhe posso agradecer a tentativa) .
Cada ideia é um eco, cada acto um plágio.
Podemos tirar os homens da nossa presença, podemos esforçar-nos por os ignorar, esquecer, reduzir ao nada, mas alguns continuarão vivendo, invisíveis, na nossa solidão.

Sem comentários:

Enviar um comentário