Há momentos que consegue reservar apenas para si.
Revê os ensinamentos que foi captando aqui e ali, esforça-se por aplicá-los e subitamente o milagre acontece: fica só diante de si mesma.
Nesse instante mágico, sentada na sua cadeira que quase ocupa totalmente o exíguo espaço onde medita, tem a impressão que toda a vida à sua frente, e pensa:
"É tudo uma maldita mentira! Não vale a pena pois estou acabada. A minha vida está à minha frente, terminada, fechada, como um saco de compras, e contudo tudo o que lá está dentro, está inacabado".
Durante um breve instante, Fátima tentou julgar-se. Foi tentada a dizer:
"É uma vida bela!"
Mas subitamente cai em si. Não era possível julgá-la, pois tratava-se simplesmente de um esboço. Becas tinha passado toda a sua vida a disparar contra a eternidade, não tinha entendido nada.
Com que dureza corria Becas atrás da felicidade, atrás do amor, atrás da liberdade.
Para quê? Gostaria de se libertar das amarras da vida, tinha casado, tinha sido infeliz, recuperara, criara uma página social, falava e escrevia em sessões públicas.
Levava tudo a sério, como se fosse imortal.
Não tinha saudades de nada. Havia muitas coisas de que poderia ter saudades: o primeiro beijo, o primeiro filho, de quem não tem notícias há muito, a praia no mês de Setembro, aquela viagem à Índia...
Mas a desilusão tinha desfeito o encanto de tudo.
Pensou chorar, olhando-se no pequeno espelho que refletia o seu rosto seráfico. Qualquer coisa passa sempre daquele para este lado.
"É sempre assim quando olho para dentro de mim. Qualquer coisa passa dela para mim. Pensei que esta sensação tivesse acabado", sussurra.
Se insistisse na concentração, se entrasse mais fundo na sua alma, o seu olhar ficaria preso para sempre na contemplação.
Estava só.
Mito bom!
ResponderEliminarMuito bom, como tudo o que escreve!
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