segunda-feira, 12 de março de 2012

Quem fala assim não é gago

Entrei para o Instituto Superior Técnico a 14 de Outubro de 1968.
Nesse Outono eclodiu um conflito entre as Associações de Estudantes (AE’s) e o Governo, no que diz respeito ao funcionamento das cantinas das AE’s e o Serviço Social em geral, e esse conflito foi-se agudizando.
Em meados de Novembro, na cantina,houve uma reunião geral que decidiu que todos deveriam ir ao funeral de um estudante morto pela PIDE, funeral esse que saia da Igreja da Praça de Londres.
Fomos e esse foi o meu baptismo de fogo com a polícia de choque.
Felizmente para mim, nessa época estava bem preparado fisicamente e pude fugir a tempo até à Praça do Chile, aquando da carga policial subsequente.

Passados quinze dias, depois de um processo muito complicado, a AEIST decidiu através de um plenário dos estudantes fazer um dia de greve na escola. Tratou-se de um processo muito participado na altura. A Direcção da escola e o Governo reagiram muito mal a esse processo, encerrando a escola.
Isso que fez com que os estudantes que estavam dentro do Pavilhão Central tivessem obviamente aberto o pavilhão e em poucas horas ocuparam o IST (lembro-me que o Director ficou no 1º andar como que enjaulado e cá em baixo, decidiu-se que ele não deveria participar no almoço volante).

O ministro da Educação era o Prof. Hermano Saraiva, elevado agora à condição de moralista (a moralidade e mesmo a santidade são apenas uma questão de tempo).
Seguiu-se a ocupação do Pavilhão Central e a tomada do gineceu, ou sala das alunas (na altura havia as miudas feias, as muito feias e as do Técnico).
Seguiram-se 5 anos de confrontos que qualquer dia vou relembrar.
Mas não foi para isso que aqui vim hoje.
Venho desenterrar uma frase célebre de Mariano Gago, Presidente da AEIST (Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico), salvo erro no ano lectivo de 1969/70 (o ano do terramoto em 28 de Fevereiro de1969), e actual ministro .
Estávamos em mais uma RGA (Reunião Geral de Alunos) e Mariano Gago fala no estrado com microfone na mão, tentando fazer aprovar uma qualquer moção da Direcção, dizendo, no seu distanciamento de ser superior, que era impossível fazer funcionar " uma assembleia com este tipo de gente"
Foi derrotada essa moção e Mariano liberta a frase que serve de pretexto a este monólogo:
Meus caros, as minorias não têm de seguir as maiorias, se estas forem estúpidas...a moção vai em frente!"
Obviamente a "gentalha" não aceitou e Mariano pediu a demissão pouco tempo depois.
Creio que foi para França....

2 comentários:

  1. Excelente partilha.
    Triste, partiu cedo demais !

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  2. Tive que partir
    O mundo virtual é perigoso e anti social
    Faria as delícias da polícia política
    Ontem, como hoje

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