sexta-feira, 16 de março de 2012

O Político, o assessor e o filósofo

Major: - Mas de quem foi o raio da ideia de difundir nesta campanha a música de Vangelis? Será que só eu é que penso, nesta campanha? Querem que os gajos que lhes garantem o sustento se cultivem, se comecem a interrogar?
Metam a merda da música do Zé Cabra!
Assessor: - Mas, Major, todas as teorias de comunicação apontam para o facto de se dever elevar o nível da mensagem, e eu pensei…
Major:- Pensou mas pensou mal…não basta tirar um curso na Católica, usar gravata até ao umbigo e pensar que sabe mais que a gente que aqui anda há um ror de anos a expor-se nesta luta tramada. Vá por mim, Faria, esta gente só lhe vem comer à mão se lhe dermos o que eles querem, ouviu? Não se esqueça disto: enquanto houver burros tem de haver quem os pique!
Assessor: Com certeza, Major, mas contudo não entendo porque temos de continuar a aliciar as crianças em idade escolar e muito menos porque se gastam rios de dinheiro com a distribuição de electrodomésticos, dinheiro esse que faz imensa falta para as acções definitivas, como o Major bem sabe!
Major: Faria, será que tenho de lhe ensinar tudo? Acha que eu ia jogar dinheiro assim fora? Não reparou que eu distribuí esses aparelhos em zonas concelhias ainda não servidas de energia eléctrica? Toda a gente devolverá mais cedo ou mais tarde os aparelhos pois nem espaço têm para os colocar em casa e não sabem que lhes fazer! E já agora, Faria, assegure-se que as canetas são entregues a quem delas não saiba fazer uso, entende? Esse é o grande objectivo da nossa política: proporcionar o chamado prazer imediato ao povo.

Sócrates: Major, se a medicina trata dos discursos relativos à doença e à saúde, qual o tipo de discurso de que trata a retórica política?

Major: Todos os discursos políticos produzem, através da acção, efeitos concretos. Com a retórica estamos perante a arte da palavra e portanto ela dispensa a acção. O objectivo principal da retórica é a persuasão, a capacidade de convencer os outros, quer sejam os juízes do apito dourado ou o povo.
Sócrates: - Mas qual é afinal, de entre as realidades existentes, aquela que constitui o objecto dos discursos próprios da retórica?
Assessor: - A persuasão da retórica tem por objectivo a justiça!

Sócrates: - A retórica é então obreira de uma persuasão produzida pela crença e não pela ciência, sobre o justo e o injusto? Significa então que ser persuasivo não significa estar dentro da razão, mas apenas ter dotes oratórios?
Não precisa pois o orador de conhecer a natureza das coisas, mas apenas encontrar um meio qualquer de persuasão que o faça aparecer aos olhos dos ignorantes como mais entendido que os entendidos?

Major: - Lá está você com essa treta das filosofias. O importante é dar felicidade às pessoas, tão tristes elas andam e se pudermos melhorar a sua vida enquanto melhoramos a nossa, tanto melhor, para quê complicar? Se apenas conseguirmos melhorar a nossa, ninguém, ninguém, ouviu, poderá acusar-nos de não termos tentado! Afinal podemos errar, somos apenas homens!

Sócrates: - Acha então, Major, que o orador não precisa de saber de medicina para convencer alguém a tomar um medicamento, mas será que se passa o mesmo em relação à justiça, ao bem e ao belo? Para que possas fazer de Faria um orador, é preciso que ele conheça o justo e o injusto, quer tenha adquirido este conhecimento anteriormente, quer o tenha recebido mais tarde de si, Major. O bom orador então será aquele que pratica apenas acções justas.

Assessor: - Receio que a verdade seja um pouco chocante! Aquilo a que eu dou o nome de retórica é parte de um todo que não é, de modo algum, uma coisa bela. A retórica destina-se a produzir um certo agrado e prazer, não é uma arte, e pouco importa que se domine totalmente o tema abordado.

Sócrates: - Podemos então concluir que a retórica política não tem por objectivo procurar a verdade, elucidar, e só resulta quando um ignorante se dirige a uma multidão de ignorantes, abordando um tema que todos desconhecem?

Major: - Ora aí está,! Faria, ponha os olhos neste homem, ele está aqui há apenas 5 minutos e já entendeu! Vá lá imediatamente pôr a música do Cabra e ofereça as canetas dos chineses, por amor de Deus! E depressa, antes que eu esqueça o discurso que tive a trabalheira de decorar esta noite na reunião da Metro, sobre Razão e Poder..
Mexa-se homem!

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