I
Encontro misterioso
O dia fora luminoso e quente naquele mês de Setembro do ano de
mil quatrocentos e noventa e sete, mas estava a terminar.
Na Judiaria ouvira-se
até há poucos instantes o chilrear feliz dos pássaros que vindos do norte se
dirigiam para as árvores que lhes serviam de abrigo noturno na zona da Ribeira.
Samuel Gacon, aparentando
um grande cansaço pois tinha trabalhado até tarde na sua oficina, sentou-se para
descansar um pouco antes de regressar a casa, na Alagoa, retirou os pesados óculos
com armação de madeira, e pousou-os sobre uma pequena mesa de trabalho.
Levara grande
parte do dia a pensar no encontro que iria ter antes de regressar a casa, mas
agora, sucumbindo ao cansaço, não se conseguia lembrar quando ou quem o tinha
solicitado, apenas sabia que estava marcado na sua pequena folha de notas sobre
a mesa de composição, mas não se preocupou demasiado com esse detalhe,
atribuindo o lapso ao intenso trabalho dos últimos tempos.
Passados alguns
momentos, que lhe pareceram uma eternidade, Samuel deixou a Judiaria agora
completamente deserta e escurecida pelo manto negro que entretanto caíra sobre
Faaram, e chegou com alguma facilidade à morada que vinha indicada no papel,
apesar de se tratar de uma zona da vila que desconhecia completamente. Era um
edifício estranho, bem cuidado, e o que mais o surpreendia era o facto de ali
parecer reinar um silêncio quase absoluto e não se ver ninguém nas ruas, mesmo atendendo
à hora tardia.
Bateu
vigorosamente na pesada porta da casa que estava apenas encostada, mas como
ninguém respondesse, resolveu entrar após um momento de hesitação, e enquanto
os seus olhos se encantavam com a magnífica pintura das paredes do amplo espaço
onde se encontrava, a porta fechou-se suavemente atrás de si. Esperou uns
instantes que alguém surgisse para o receber, mas como nada sucedesse resolveu
avançar pelo espaço à sua frente e escolheu uma das oito portas que davam
acesso a outras divisões.
- Estou a começar a gostar desta visita. Era
mesmo isto que me fazia falta, uma pequena aventura em casa de um ilustre
desconhecido - pensou Samuel, enquanto passava pela porta escolhida e acedia
a uma grande divisão.
Nada daquilo lhe
era familiar e começou a ficar preocupado, mas simultaneamente fascinado com o
que via.
A sala era
enorme e estava aparentemente vazia, tanto quanto lhe era permitido ver naquela
obscuridade a que ainda não se habituara. Seria possível que estivesse a
sonhar, ou aquele era mesmo um espaço real? Não avistava ninguém, e resolveu
esperar um pouco, se possível sentado, mas não encontrou nenhuma cadeira,
apenas um pequeno banco de madeira. Resolveu utilizá-lo e esperar pacientemente
que alguém aparecesse para o receber.
Lentamente ia adaptando
a sua vista à escuridão e pareceu-lhe vislumbrar ao fundo, à direita, algo que
se parecia com uma porta, ou mesmo duas, dispostas simetricamente em relação a
uma pequena saliência na parede.
Reparou também
que não havia luz nem janelas por onde entrasse o mais pequeno raio de sol,
provavelmente por já ser noite, e ao voltar-se ocasionalmente para trás,
verificou com crescente surpresa que a sala se prolongava nessa direcção, como
se de um reflexo num espelho se tratasse.
Mais curioso
ainda era o facto de na parede de fundo arder uma vela pesada e grossa, que em
vez de iluminar o amplo espaço proporcionava uma atmosfera mais sombria e
estranha. As suspeitas iniciais de que se tratava de uma armadilha iam-se
avolumando e por várias vezes esteve tentado a dar meia volta e sair. Algo
porém o impelia a levar a história até ao fim.
- Afinal o que é que tenho a perder?- pensou.
- Ainda bem que
pudeste vir, meu amigo. Estava à tua espera! Devo confessar que sempre
alimentei a esperança de te poder receber nesta minha casa - soou uma voz forte
como um trovão, de alguém que o tratava com familiaridade.
Samuel pensou
reconhecer aquela voz forte, mas foi incapaz de a identificar, sabendo apenas que
se assemelhava ao que imaginava ser a voz de Deus, clara mas inexplicável.
- Boas tardes!
Presumo que estou a falar com aquele que teve a gentileza de me convidar para
este estranho encontro, pois de facto não o consigo ver, apenas ouvir - atreveu-se
Samuel a dizer, passado o primeiro momento de surpresa.
- Não tomes isso
por indelicadeza, Samuel. Considera apenas que faz parte da encenação - diz-lhe
a voz, com uma ressonância extraordinária, como saindo do fundo do seu próprio
peito.
- Encenação? -
perguntou Samuel ligeiramente perturbado.
- Exactamente, Samuel,
a encenação necessária para que se encontre a porta correcta, aquela que nos
fará progredir no sentido certo - diz a voz, metafórica.
- Nesta sua casa
é fácil perdermo-nos. Quase seria necessário um mapa - arrisca Gacon, tentando
ser irónico.
- Esse mapa, o
que nos conduz à Felicidade, não existe, e de facto não faz falta - prossegue a
voz.
- Não desejamos
todos a Felicidade, honrando Deus e os homens? - pergunta Samuel, entrando no
jogo do anfitrião invisível.
- A Felicidade!
Bem sei que é isso que aqui te traz! Ela nunca é o resultado de uma busca
directa. É sempre um efeito secundário e acontece quando nem sequer se está a
pensar nela - ouve-se prontamente.
- Significa
então que eu tenho estado a viver de uma forma errada, que apesar de fazer tudo
o que sempre desejei, honrar os meus pais e servir a Deus, não consigo ser feliz
devido a algo que desconheço? - questiona Samuel, visivelmente perturbado, que
prossegue perante a ausência de uma resposta:
- Compreendo o
que está a dizer. Considera então que eu tenho estado à procura de algo que não
existe, de uma utopia. Tenho estado errado? - conclui, um pouco exaltado.
- O problema não
está em ti, Samuel, mas no padrão de vida que tens construído. A Felicidade não
depende do carácter das pessoas mas sim da sua consciência.
- Confesso que
nunca tinha pensado nisso sob esse ponto de vista.
- Quero agora
que examines a tua consciência - disse a voz, que parecia vir agora do fundo da
sala, no lado direito, mais obscurecido.
- Examinar a
minha consciência! Mas que significa isto? Estarei a ser julgado? Terei acaso
morrido e este é o passo seguinte? Terei cometido em vida algum delito sem
disso estar consciente? - interroga-se Samuel, parecendo que se estava a
interpelar a si próprio.
Esperou algum
tempo pela resposta, mas apenas ouviu o silêncio. Aparentemente o seu anfitrião
tinha desaparecido de uma forma tão misteriosa como tinha aparecido.
Sentia-se
cansado. A decisão de ir àquele encontro não fora tomada apenas por
curiosidade, ele esperava obter algumas respostas para as suas dúvidas, para os
problemas que o perseguiam a ele e aos seus, desde sempre. Qual a razão de ser
o seu povo o escolhido para todas as provações?
A obscuridade
reinante na sala e o facto de se encontrar sozinho davam-lhe uma sensação de
vazio, do nada, uma grande tranquilidade, algo que não sentia há muito tempo.
Habituara-se ao
mundo barulhento, aos sons artificiais, e para ele o silêncio fora mantido à
distância por muito tempo. Podia dizer-se que ele fugia ao silêncio, que ficava
apavorado com ele. Uma espécie de pesadelo ou mesmo de tortura. E foi isso que
inicialmente lhe aconteceu, mas aos poucos foi-se acostumando ao vazio, interiorizando
a sua completa solidão, fundindo-se com o silêncio, e uma catadupa de
pensamentos desordenados afloraram-lhe a mente, num tropel incontrolável.
Tentou abstrair-se desses sons mudos que lhe martelavam o cérebro, e de repente
pareceu sair para o exterior de si mesmo, repousando nas frinchas de silêncio
daquela confusão que lhe martelava as têmporas. E pela primeira vez em muitos
meses, tentou entender as causas da sua infelicidade inexplicável.
Acordou
sobressaltado com o estranho sonho, e levou ainda algum tempo para que visse
nele uma espécie de mensagem que agora entendia totalmente.
Anoitecera
entretanto pesadamente sobre a judiaria, sobre Faaram, sobre a terra.
O tipógrafo, de
longas barbas que começavam a esbranquiçar, ligeiramente curvado, envelhecido
prematuramente, tinha um ar despreocupado enquanto fazia o trajecto habitual
desde que chegara a Faaram há cerca de quinze anos. Regressava agora a sua casa
com a convicção de que algo se passara naquele intervalo de tempo que o
libertou temporariamente das suas preocupações, das suas indecisões.
O ruído dos seus
passos e a respiração ofegante eram, a par de um ou outro uivar de algum cão
vadio, os únicos sons que se ouviam nas ruas que percorria a caminho da Alagoa.
Ao seu encontro, preocupada, já vinha Sara, a sua amada esposa, que o recebeu e
beijou com um ar sorridente.
Sem uma palavra,
o que lhe era pouco habitual, mas ostentando um ar pacificado que não passou
despercebido a Sara, Samuel acendeu uma vela e sentou-se apressadamente a uma mesa,
redigindo uma rápida nota enquanto balbuciava uma oração. As sombras
projectadas nas paredes da austera divisão pareciam bailar uma dança macabra e
ajudavam a criar uma atmosfera pesada.
Terminada a
escrita, entregou o papel dobrado a Fátima, a empregada islamita que
permanecera silenciosa, o tempo todo:
- Fátima, vai
depressa a S. Pedro e entrega esta mensagem ao meu bom amigo Joseph.
Com um simples sinal
de assentimento, Fátima saiu de casa e seguiu na direcção da Mouraria.
Samuel tirou
então os óculos com a sua mão direita, num movimento lento, pousou-os na mesa,
esboçou um largo sorriso para Sara que permanecera imóvel a seu lado e beijou-a
carinhosamente.
- A Felicidade
sempre esteve connosco, Sara, e só hoje disso me apercebi.
A noite caía
sobre Faaram.

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